Sabrina Noivas 8
Ivys League

 verdade que vencer no  tudo? As irms Hall conheciam o sucesso. E Ivy, a mais nova e tmida, tinha muito o que aprender. Portanto, quando comeou no seu primeiro emprego, estava determinada a mostrar ao mundo o que era capaz de fazer. No entanto, havia uma pedra no seu caminho. Rick Scott, seu encantador colega de trabalho, duvidava que pudesse obter xito sozinha. S depois de ter recusado sua ajuda, exigindo que a tratasse como todos os outros reprteres, e cometido um grande engano, Ivy comeou a pensar que talvez fosse a mulher errada para aquele tipo de emprego. E Rick era o homem certo para ela...

Digitalizao e correo: Nina

Ttulo original: Ivys league
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1993
Gnero: Romance   Estado da Obra: Corrigida


Srie Irms Hall

Ordem	Ttulo	Ebooks	Data
1	Deck the Halls
???	Dec-19902	Jack of Hearts
Sabrina Noivas 09 - A Dama De Copas	Sep-19923	Ivy's League
Sabrina Noivas 08 - A Vitria Do Amor	Jun-1993


  










CAPITULO I

Os homens no passam de garotos crescidos. Napoleo. Escreva. Compenetrada, Ivy Hall escreveu a citao no bloco de anotaes. Em seguida Billie White, a fotgrafa, prosseguiu:
 Olhe para eles  e apontou para o campo de futebol da Universidade do Texas, onde acontecia o treino do primeiro adversrio do Longhorn naquela temporada.  Quarenta graus  sombra, e os sujeitos correndo atrs daquela maldita bola!
Ivy moveu-se no banco de alumnio e abanou-se com o bloco, tentando amenizar o efeito do sol vespertino.
 O Colts tem de treinar em algum lugar  comentou.  No que isso v ajud-los em alguma coisa...
Como todos os texanos, tambm tinha a cor da bandeira da Universidade do Texas correndo nas veias.
 Acha que o treino no vai ajud-los? Esqueceu dos tais laos masculinos, da unio mstica que faz dos homens uma irmandade?  e apontou para o bloco de anotaes da colega.  Carlyle.
Ivy escreveu a citao, tentando no ferir os sentimentos da fotgrafa.
	Sublinhe.
	Billie...
	Estou falando srio!
Irritada, Ivy sublinhou a citao de Carlyle duas vezes.
 Acha que eu sou maluca, no ?
 Talvez um pouco.
	No. S no acredito que os homens estejam envolvidos numa conspirao contra ns  Ivy respondeu.
	Ah, no? O que voc est fazendo neste instante?
	Assistindo ao treino do Colts.
	E sabe por qu? Porque, alm de mim, ningum vai falar com voc  e apontou para o grupo de homens aglomerados junto ao banco dos reservas.  Ns estamos aqui, mas a ao est l embaixo.
Para mim no  to ruim  e mostrou a cmera fotogrfica , mas voc precisa escrever uma histria.
	Eu pretendo entrevistar o time depois do treino.
	Onde?
	No vestirio.
	Est comeando agora, meu bem?
	Trabalho no Austin Globe desde junho.
Ivy estava entusiasmada por poder escrever para o semanrio esportivo, e o jornal significava um sonho que acalentava h anos. Sempre quisera ser reprter esportiva.
	Dois meses. Ainda  uma novata.
	Mas fiz estgio no Lone Star  e odiara a presso do jornal dirio.
	Estou surpresa! Devia ter aprendido mais.
	E o que  que eu ainda no sei?
	Detalhes bsicos. Olhe s para voc!
	Qual  o problema?
	Sua camisa  branca.
	E da?
	Vai ficar transparente quando estiver molhada.
	E quem disse que vou me molhar?
	Aposto que passou a cala antes de vesti-la.
	 claro que sim!
Billie vestia-se como algum que voltava de uma batalha perdida.
	E os cabelos?  a fotgrafa prosseguiu, apontando para as longas mechas castanhas de Ivy.  Vai ter de cort-los:
	De jeito nenhum!
	Mas voc parece uma garota!
	Eu sou uma garota! Ou melhor, uma mulher.
 Escute aqui, os cabelos vo embora. E o nome tambm.
	O que h de errado com o meu nome?
	 muito feminino. Se quer ser respeitada nesta profisso, no pode ser to feminina.
Ivy tentou manter a calma. A ideia de que reprteres esportivas tinham de imitar os homens era antiquada e absolutamente irritante.
	Existem homens trabalhando como reprteres de moda e nem por isso eles tm de pintar as unhas.
	Ento, por que a maioria deles usa maquiagem?
	Billie!
	Acha que enganam algum com aquela histria de filtro solar? E ento? J pensou em um nome?
	Sinto muito, mas infelizmente meus pais no me chamaram de Billie.
	Meu nome no  Billie.  Wilma. O que podemos fazer com Ivy? Ivy... Ivy... Ivan? No, voc no tem cara de russa. No tem um segundo nome?
	Christine.
	Chris!  perfeito! Um nome totalmente americano. De agora em diante, voc ser Chris.
	Billie  Ivy comeou, sem querer insultar a colega bem intencionada. Ela usava uma cala larga e uma jaqueta sem corte, e os cabelos curtos estavam escondidos sob o bon de um time de beisebol.  Por favor, quero tentar fazer as coisas ao meu modo, est bem? Sei que est na rea de esportes h vinte anos, mas...
	Trinta.
	H trinta anos havia muito preconceito contra mulheres que trabalhavam como reprteres, especialmente as especializadas em esportes.
	E ainda h, minha amiga.
	Mas agora somos profissionais, e acho que os jogadores e tcnicos sabem disso. Estamos apenas fazendo nosso trabalho.
	Ento, por que est sentada aqui, ouvindo minhas histrias, enquanto todos os outros jornalistas esto l embaixo, entrevistando o treinador do time adversrio?
Ivy olhou para o banco de reservas. O jogo de abertura da temporada seria no final de semana e o esquadro oponente representava uma faculdade de porte mdio, mas a Universidade do Texas era a favorita, como sempre.
	Bud e eu estamos dividindo as entrevistas, e ele me passar todos os dados mais tarde.
	Foi o que ele disse?
	Sim.
	E voc acreditou?
- J dividi entrevistas antes.
	Com Bud, e na rea esportiva?
 Bud tambm est comeando, e quando ainda estvamos na faculdade...
 Ah, por favor! Oua os conselhos da mame, mocinha!
Ivy no queria ouvir mais nada. No era mais criana, no se comportava de maneira infantil, mas Laurel e Holly, as duas irms mais velhas, ainda a tratavam como um beb.
Tinha quatorze anos quando os pais faleceram num desastre de avio e, desde ento, as duas sempre a deixavam de fora das discusses mais importantes. Fora protegida, e no havia como renunciar ao papel de caula da famlia, mas agora poderia mostrar ao mundo que finalmente havia crescido. Seria uma jornalista esportiva de sucesso, financeiramente independente e estvel.
 Chris, minha menina  Billie insistiu.  Voc est sendo passada para trs  e apontou para Bud, ex-colega de classe de Ivy e reprter de um jornal dirio de Austin.  Ele pode ser novato, mas est estabelecendo um bom relacionamento com todos os treinadores. Com quem acha que eles falaro depois do jogo? Com voc, ou com seu amigo Bud? Acha que eles diro, ol, Chris, o que acha de uma cerveja?
 No gosto de cerveja.
	Faa como quiser, mas depois no diga que no avisei. Voc  boa demais.
	Eu sei.
	Precisa ser mais agressiva.
	Eu sei  Ivy suspirou.
	Se no for agressiva, nunca conseguir boas reportagens.
	Eu sei!
	Entre naquele vestirio e espere pelos jogadores. Quando o treino terminar e eles forem para o chuveiro, belisque o mais promissor e pergunte quais so as chances de vitria contra o Longhorn.
 Pensei que fosse fotgrafa  Ivy comentou com ironia. 
Mas sabia que a colega estava certa. Era a primeira matria que fazia para o Globe, e estava nervosa. Por isso fora sentar-se na arquibancada. Para ordenar as ideias e planejar as perguntas que faria.
 Eu vou conseguir  afirmou.  Ser mulher ser mais uma vantagem a meu favor. Pelo menos serei notada. No acha que os jogadores vo preferir falar comigo do que com algum veterano cheio de histrias de glrias passadas?  e levantou-se, disposta a esperar pelo final do treino num lugar mais fresco, longe do sol inclemente.
	Onde vai?  Billie perguntou.
	Ao vestirio.
	Acha que eles vo deixar voc entrar?
	No podem impedir. Est na Constituio.
	J pensou na possibilidade deles criarem situaes embaraosas?
	Constrangimento  uma ao ilegal.
Billie encarou-a com ar piedoso, fazendo-a perceber o quanto estava sendo ingnua.
	O que pretende fazer quando um dos jogadores deixar cair a toalha? Sorrir e virar-se de costas?
	Vou manter os olhos fixos nos dele.
	Sei... Quer ouvir uma histria?
Sem ter como escapar, Ivy sentou-se novamente na arquibancada escaldante.
	Lembre-se que devemos rir dos homens para no chorar por eles. Napoleo novamente. J escreveu?
	Sim, Billie.
A fotgrafa coloria suas histrias com palavras picantes e embaraosas, e Ivy teve de fazer um grande esforo para no ficar vermelha, temendo olhar em volta e descobrir que algum ouvia a conversa.
 ... e sabe o que era?  Billie parou, esperando que ela desse um palpite.
Ivy forou um sorriso:
	Era o seu... Ah, voc sabe...
	Est vendo? No  capaz nem de pronunciar o nome certo!
	No acho que seja necessrio!  ela exclamou, levantando-se e pondo um ponto final na discusso ridcula.
	Ei, no precisa ficar nervosa. No estou rindo de voc. Tem irmos?
	Duas irms.
	Eu sabia. Bem... boa sorte com os rapazes, Chris. Eles j esto saindo do campo.
 Oh, no!  exclamou, correndo para a porta do vestirio.
Quase perdera a oportunidade de fazer uma boa reportagem porque ficara ouvindo histrias sobre a anatomia do corpo masculino. Conseguiu alcanar a porta do vestirio no momento em que o ltimo jogador do time passava por ela, e esperou com os outros jornalistas at que fossem admitidos. A primeira coisa que notou ao entrar foi o vapor que molhava a parede de azulejos, nica divisria entre a rea dos chuveiros e o resto do vestirio.
Como reprter, podia simplesmente ir at um dos chuveiros e fazer suas perguntas, mas preferiu respeitar a privacidade dos atletas e aguardar perto dos armrios.
Olhou para o bloco de anotaes, cheio de citaes ridculas, e virou a pgina. No era a primeira vez que entrava num vestirio, mas era o primeiro contato que fazia com os jogadores de um time universitrio, conhecidos por sua agressividade e pelo pssimo hbito de intimidar reprteres. Com os times de basquete tudo havia sido mais fcil, mas agora...
	Hall!  Bud chamou, aproximando-se dela com um sorriso.  Conseguiu alguma coisa?
	Ainda no  ela respondeu, nervosa e encabulada.
	Eu tambm no. E j estamos aqui h uma hora!
De repente Ivy notou que a camisa de Bud estava mida e transparente, e lembrou-se do que Billie havia dito sobre sua blusa branca. Tentando disfarar a preocupao inoportuna, sorriu novamente e disse:
	Espere mais alguns minutos e terei boas informaes para voc.
	Esquea  Bud respondeu.  Meu prazo est estourando. Vou ter de me contentar com a entrevista do treinador.
	E eu?  Ivy perguntou espantada, lembrando-se do aviso de Billie sobre a lealdade dos colegas de profisso.
	 melhor trabalhar um pouco : ele acenou, saindo rapida mente do vestirio mido e perfumado.
Bud a enganara! Pois mostraria a ele que tinha competncia para escrever um bom artigo sem a sua ajuda.
Todos os outros jornalistas haviam ido esperar perto dos chuveiros, deixando-a sozinha. J estava comeando a incomodar-se realmente com a umidade do ambiente, quando os primeiros integrantes do time surgiram na rea dos armrios, onde ela os aguardava.
 Ivy Hall, do Austin Globe  ela anunciou, aproximando-se do primeiro atleta envolto em sua toalha.  Qual ser a estratgia do time para o jogo contra o Longhorn, no sbado?
 Vencer  o atleta respondeu sem encar-la, enxugando os cabelos.
	Em sua opinio, qual  o ponto fraco do Longhorn?
	Jornalistas intrometidas e chatas.
Ivy no perdeu tempo respondendo ao insulto. Outros jogadores aproximavam-se, seguidos de perto pelos reprteres, e ela olhou em volta para verificar se havia outra mulher no grupo. Nenhuma.
	Ol. J tem dono?  uma voz masculina perguntou s suas costas.
	Sou do Globe  Ivy respondeu, virando-se e preparando o bloco de anotaes.
 Uma mulher do mundo. Gosto disso  o sujeito sorriu, chegando mais perto.
A julgar pelo uniforme, era um dos treinadores do Colts.
	Ei!  gritou um segurana.  No permitimos namoradas nos vestirios!
	Eu sou jornalista  e mostrou a credencial.  Ivy Hall, do Austin Globe.
	Deus nos proteja das feministas  o segurana riu, tapando os olhos com uma das mos.
Respirando fundo para manter a calma, Ivy voltou a concentrar-se no tcnico e perguntou:
	Qual  a estratgia do time para o prximo sbado?
	No prximo sbado  ele comeou devagar, esperando que ela anotasse cada palavra do que dizia , vamos arrancar os... dos caras do Longhorn.
	Pode ser mais especfico?  Ivy pediu, tentando esconder o embarao provocado pelo vocabulrio grosseiro.
Mal havia acabado de falar e percebeu que cometera um grande engano.
  claro que sim  sorriu o treinador, descrevendo com linguagem clara e precisa o que pretendiam fazer com os oponentes.
Com esforo, Ivy manteve-se inexpressiva, os olhos fixos nos dele. Sabia que todos ouviam a conversa com ateno, e podia imaginar o ar satisfeito dos outros jornalistas, todos homens, e dos componentes do time, que apresentavam-se em diversos estgios de nudez.
Finalmente o tcnico concluiu:
	Entendeu tudo, meu bem?
	Perfeitamente. S preciso saber seu nome.
	J devia saber.
Devia, mas o Colts tinha tantos tcnicos e preparadores, que era difcil no confundi-los. Tentando identific-lo, examinou a camisa do uniforme em busca de iniciais que pudessem ajud-la.
	Ei, Treinador Collin  algum gritou do outro lado do vestirio.
	Estou aqui  ele respondeu, afastando-se sem sequer olhar para Ivy.
O treinador principal. O chefe da comisso tcnica. Maravilhoso!
 Obrigada pela entrevista, treinador Collin  gritou satisfeita. 
Releu as anotaes que fizera e, certificando-se de que conseguira registrar todos os dados, olhou em volta e tentou escolher um grupo de jogadores para entrevistar.
Todos desviavam os olhos quando notavam que eram observados.
timo! Se o tcnico do time a tratara com desdm, o que podia esperar dos atletas? Ressentida, olhou para o treinador Collin e viu que ele discutia com um dos jogadores.
 No quero ver voc fazendo bobagens no sbado, entendeu? Voc pode ser...  e parou, notando a aproximao de Ivy. Escute aqui, mocinha, j disse tudo o que tinha a dizer  e voltou a concentrar-se no atleta.  Eu escalo o time, e se continuar me desafiando, Brett tomar o seu lugar no jogo do sbado.
Alerta, Ivy retrocedeu dois passos e esperou pela resposta do jogador, certa de que estava prestes a conseguir uma boa histria.
 No seu lugar, eu no faria isso  disse o integrante do Colts.  A no ser que no queira ganhar a partida.
Rpida, Ivy ia escrevendo: Taylor Brown, zagueiro titular do Colts, e Sonny Collin, tcnico principal e chefe da equipe, parecem estar vivendo um momento de controvrsia.
O treinador baixou a voz e Ivy esforou-se para ouvir o que sle dizia.
	Sei que precisa mostrar servio e bons resultados, mas o time  mais importante do que sua carreira!
	Para mim no!  o zagueiro explodiu.  Estou fazendo mais por essa droga de faculdade do que ela tem feito por mim.
Collin bateu com o dedo indicador no ombro do atleta e disse:
  por causa dessa sua atitude que Brett vai jogar no prximo sbado!  e saiu sem esperar pela resposta, passando por Ivy como um furaco.
Rpida, pressentindo uma boa oportunidade, ela aproximou-se do zagueiro e disparou:
 Como tudo isso vai afetar suas chances de voltar ao time?
O grupo que juntara-se para ouvir a discusso comeou a dispersar-se, e boa parte dos jornalistas deixava o vestirio para voltar s redaes de seus jornais. Ivy sabia que estava prestes a conseguir um verdadeiro furo!
	Como tudo isso vai afetar suas chances?  repetiu.
	Collin vai me escalar. Ele sabe que no pode me deixar no banco.
	Mas ele mencionou outro jogador, e Brett Carson tem marcas impressionantes desde que jogava no segundo quadro.  Estatsticas eram sua especialidade, e os nmeros permaneciam em sua memria at que precisasse deles.
	Brett participou de dois jogos enquanto eu cuidava da contuso no ombro, mas agora estou recuperado e vou reassumir a posio. Eu sou o titular!
	Tem certeza?
O zagueiro encarou-a como se s ento a notasse de verdade. Com expresso furiosa e ofensiva, deslizou os olhos por seu corpo como se apreciasse as condies de um objeto de arte.
 Eu sou o melhor  disse. Em seguida abaixou a toalha e perguntou:  No concorda comigo?
Nervosa, Ivy manteve os olhos fixos nos dele, lutando para evitar o rubor que a colocaria numa posio ridcula. Em seguida pensou em Billie e em suas histrias, e decidiu que tinha de tomar uma atitude  altura daquele sujeito arrogante e atrevido.
Devagar, obrigou-se a baixar os olhos pelo corpo nu de Taylor Brown, contou at cinco e voltou, focalizando novamente seu rosto.
Com um sorriso cnico e a voz mais doce que conseguiu forar, respondeu:
 Sinceramente, j vi coisa bem melhor.
A sala explodiu num coro de gargalhadas e o zagueiro ficou vermelho. Furioso, recolocou a toalha e, sem olhar para trs, voltou para a rea dos chuveiros.
Aliviada e satisfeita com o prprio comportamento, Ivy viu-se obrigada a concordar com uma das opinies de Billie. Os homens eram realmente seres estpidos e incapazes do menor desenvolvimento.
Irritada, dirigiu-se  porta e notou o olhar divertido de um homem alto e forte que, apesar do terno e da gravata, era muito mais atraente que todos os brbaros seminus que a cercavam.
Sem interromper os passos firmes, sentiu que ele a observava como o zagueiro do Colts, com arrogncia e atrevimento, e desta vez foi incapaz de impedir o rubor que tingiu seu rosto.
Sorrindo, ele balanou a cabea num gesto de desaprovao e afastou-se da porta, dirigindo-se ao interior do vestirio.
Toda a confiana que Ivy demonstrara diante do zagueiro havia evaporado com um simples olhar de um desconhecido. Algo naquele homem lhe era familiar, como se j o conhecesse, mas no podia ser um dos atletas, porque mancava ligeiramente ao andar. Talvez fosse um comentarista, dono de uma emissora de tev... No, era pouco provvel. Os cabelos eram curtos na parte superior da cabea e longos sobre a nuca, como se houvesse mudado de ideia no meio do corte, e mechas douradas iluminavam o tom castanho claro, indicando que passava muito tempo ao sol.
Sabia que j o vira antes. Por que no conseguia lembrar-se?
Ivy virou-se e, ao observar a grande sala do vestirio, descobriu que ele estava sendo entrevistado por um reprter de outro jomal. Tambm era uma jornalista, o que significava que tinha o direito de aproximar-se para verificar se o assunto lhe interessava. 
A ltima coisa que Rick Scott queria naquele momento era falar com a mais nova colega do Austin Globe, especialmente depois da cena que testemunhara pouco antes. A jovem tinha potencial, mas ainda precisaria de muita prtica e aconselhamento antes de conseguir impor-se adequadamente dentro de um vestirio.
Pena. Estava ocupado demais para bancar o bab de jornalista, mesmo que fosse elegante e atraente.
Rick tentou escapar do encontro, mas o reprter segurou-o pelo brao para a ltima pergunta e Ivy alcanou-os nesse momento.
Sabia que ela provavelmente reclamaria do tratamento que recebera, e no estava disposto a ouvir. Ela j devia saber o que a esperava numa rea eminentemente masculina, e agora teria de enfrentar as dificuldades sozinha.
Por favor...
Fingindo no ouvir, Rick despediu-se do reprter e virou-se para partir, afastando-se com passos lentos.
 Por favor!
Com um suspiro irritado e sem parar para encar-la, Rick perguntou:
 O que ?
Observadora, Ivy percebeu que ele mancava e que logo teria de parar para descansar.
	Ei, estou falando com voc!  exclamou, disposta a impor um pouco de respeito.
	E da?  Rick perguntou, cada vez mais prximo da escada que levava para fora do estdio.
	Sou Ivy Hall, do...
	Eu j sei  e parou, disposto a livrar-se da novata inoportuna e insistente.  O que voc quer?
Ivy parou diante dele e notou que seu rosto estava contrado, como se sentisse dor.
 Escute aqui, se quer uma entrevista podemos marcar uma hora, est bem? Mas no faa escndalo com o que acabou de presenciar.
Confusa, ela respondeu:
	No queria entrevist-lo. J tenho uma boa reportagem para a prxima edio. S queria saber...
	Vai escrever sobre Taylor Brown?  Rick interrompeu.
	 claro que sim!
	O cara est sob presso, e voc foi muito dura como ele.
	Eu fui dura? Voc viu o que ele fez!
	Ele foi censurado pelo treinador e explodiu em cima de voc.
	Isso no  desculpa.
	No, mas  uma explicao. Taylor  inexperiente, e ainda me lembro de como eu ficava nervoso quando era cercado pelos jornalistas. S queria...  Rick parou, mas era tarde demais.
Qual era o problema? Agora era um reprter! No jogava futebol h mais de trs anos!
 Queria o qu?
Rick fitou os olhos grandes e castanhos que inspiravam confiana e relaxou. Talvez ela tivesse futuro como reprter.
	S queria ficar sozinho  mentiu.
	Pois agora voc parece sozinho.
E gosto disso.  Haviam chegado mais perto da escada enquanto falavam, e ele aproveitou o momento para virar-se e tentar uma sada estratgica.
No primeiro degrau a perna estalou e Rick apoiou-se no corrimo, respirando fundo para suportar a dor intensa.
Rpida, Ivy aproximou-se e ajudou-o a recuperar o equilbrio, suportando-o com fora surpreendente.
 Obrigado  ele gemeu, esticando o joelho contundido e odiando a piedade que sabia estar estampada em seu rosto.
Mas em seguida fitou-a, e no viu o que imaginava.
	A rampa de acesso fica na prximo corredor. Acha que pode andar at l?  ela perguntou, calma e pronta a lidar com o problema de maneira prtica.
	Acho que sim. Tenho de tomar cuidado com movimentos s bitos  e tentou apoiar-se na perna prejudicada, encolhendo-se com a dor.
Fazendo-o apoiar-se sobre seus ombros, Ivy deu os primeiros passos e, reconhecendo-o, perguntou:
 Voc  o famoso Rick Scott, no ?

 
CAPITULO II

Com um sorriso irnico, Rick respondeu: ' Acho que sim.
	Era zagueiro do Wolves, certo?
	Est querendo dizer que s agora me reconheceu?  ele perguntou, tentando apoiar-se na perna mais uma vez.
	Sim.
	Ento, por que me seguiu?
	Porque tive a impresso de conhec-lo de algum lugar.
	O que no  nada surpreendente, j que trabalhamos para o mesmo jornal.
	Eu sei disso, mas ainda no havamos nos encontrado  ela comentou, lembrando-se da mesa vazia ao lado da sua.
A expresso de dor a fizera lembrar seu nome. J havia visto o mesmo ar de sofrimento nas primeiras pginas de todos os jornais esportivos quando Rick Scott, zagueiro do Omaha Wolves e estrela do time da Universidade do Texas, sofrera a contuso que havia posto um ponto final em sua carreira.
O Wolves disputava as eliminatrias do campeonato estadual quando Rick, sem ter para quem passar a bola, decidira romper a barreira da defesa usando sua habilidade. Havia quase alcanado o gol quando um adversrio o atingiu, lanando-o bem perto da linha lateral onde ficavam todos os fotgrafos. Mas isso acontecera h muitos anos, e agora ele massageava o joelho.
	Ainda est tendo problemas com isso?  Ivy perguntou.
	Alm de no poder jogar futebol nunca mais? No muitos.
	Sente falta da carreira, no?
 S em situaes como a de hoje  e comeou a andar devagar. 
Mais uma vez, Ivy percebeu que estava sendo desprezada. Fora um dia cansativo e difcil, e no deixaria que o mau humor de um astro aposentado a privasse de uma grande matria. Rpida, seguiu-o e perguntou:
	No gosta de mulheres na rea esportiva?
	No tenho nada contra.
	Ento, por que no quer falar comigo?
Insistente, caminhava ao lado dele acompanhando seu ritmo lento.
	Porque no estou disposto a ouvir suas queixas sobre descriminao nos vestirios.
	Isso significa que tenho o direito de reclamar?
	Ei, espere um pouco  ele disse, parando para encar-la. Aquilo foi s uma brincadeira. Os rapazes estavam no territrio deles, e ainda existem mulheres que gostam de receber atenes masculinas.
	Os homens acham que so superiores.
	E so.

	E jogadores de futebol so os piores!
		Sorrindo, Rick perguntou:
	Teve um dia duro?
	O que acha?

	No sei... Algumas pessoas gostam de visitar vestirios  riu.  Eu adoraria.
	Felizmente as mulheres esportistas so mais civilizadas, e costumam dar entrevistas em locais mais apropriados. Os homens se recusam a atender os convites da imprensa, e por isso somos obrigados a entrar nos vestirios.
	Da prxima vez, trate de controlar seus nervos. Nem sempre estarei por perto, sabe?
	A propsito, o que estava fazendo l dentro? Eu fui escalada para esta matria.
	Fui visitar velhos amigos  ele disse, encolhendo os ombros e retomando seu caminho com passos mais firmes.
	Estava me espionando?
	Voc deve ser paranica!
	Estava, ou no?
	Sim, estava. Satisfeita?  e ps as mos em torno da boca para gritar:  Eu estava espionando a nova reprter do Globe!  e baixou a voz.  S queria v-la em ao. Portanto, no precisa me processar.
	Mas devia.
Rick fez uma careta aborrecida e virou-se para partir.
	Onde est seu carro?  Ivy perguntou.
	Do outro lado do estacionamento.
	Mas... e o seu joelho?
Ele havia acabado de suportar uma intensa onda de dor, e queria contornar todo o estdio caminhando!
	Est querendo fazer um artigo sobre o meu joelho?
	No. S perguntei porque me preocupo com o bem estar de todos os seres humanos.
	Perguntou porque  mulher, e todas as mulheres so intrometidas  ele disse em voz baixa, parando para massagear o joelho.
Ivy manteve urn silncio digno e sentiu o sol de vero na cabea. J havia aprendido que as pessoas sempre preenchiam as pausas prolongadas de uma conversa com comentrios inadequados, dizendo a primeira coisa que lhes viesse  mente, e por isso conteve a ansiedade.
Segundos depois Rick ergueu-se e disse:
	Escute, eu sofri mais uma cirurgia no ltimo vero. Por isso ainda no havia me visto no jornal. Meu joelho no est perfeito, e sinto dores fortes quando fao algum movimento brusco. Posso caminhar sem a menor dificuldade, mas movimentos laterais so terrveis. Desculpe se fui indelicado.
	Oh, eu entendo. A dor deixa as pessoas nervosas. Se quiser esperar aqui, posso ir buscar meu carro e voltar para apanh-lo. Assim no ter de contornar todo o estdio caminhando.
Rick gostaria muito de recusar a oferta, mas sabia que no estava em condies.
 Eu espero  disse.
Alguns minutos mais tarde Ivy parou o carro diante da rampa de acesso, onde ele a esperava.
Depois de acomodar-se no banco do passageiro, Rick comentou:
 Pelo visto voc  mais uma ex-aluna da Universidade do Texas  e apontou para o adesivo cor de laranja no vidro traseiro.
	Sim, e tive a sorte de conseguir um emprego satisfatrio em pouco tempo.
	Satisfatrio? Muitas pessoas usam o Austin Globe como um degrau para a glria e a fama. Voc  a terceira reprter a ocupar aquela mesa em menos de um ano. De onde veio?
	 meu primeiro emprego.
 E quando se formou?
Ivy suspeitava de que ele queria saber se frequentava a Universidade na poca em que ele fazia parte do time de futebol.
	Em maio  respondeu.  Mas comecei tarde. No ano em que voc foi campeo do Cotton Bowl pelo time da universidade, eu ainda era uma caloura.
	Foi um grande ano  ele suspirou.
	E voc foi simplesmente estupendo!
	, fui  e apontou para o Jeep parado em uma das vagas prximas.  L est meu carro.	
Surpresa com o tipo de veculo, Ivy parou e esperou que Rick descesse, notando subitamente que ele no usava uma aliana.
 Obrigado. Voc  uma boa menina.
Uma boa menina! Tinha vinte e quatro anos de idade e o nico homem adulto que vira durante todo o dia a chamava de boa menina!
 ... escolheu a rea esportiva?
No prestara ateno ao incio da questo, mas sabia que ele estava curioso para saber por que decidira ser reprter esportiva.
	Sempre gostei de esportes e escrevo bem desde a adolescncia. Achei que seria uma boa idia unir as duas coisas.
	Mas entrar em vestirios no  uma boa idia.
	Eu sei.
	E no  o melhor lugar para uma boa menina.
	Acontece que sou uma profissional.
	Nessa rea, voc ter de ser dura e agressiva, persistente e inconveniente. Pensando bem, voc j  inconveniente.
Ivy respirou fundo e sentiu que estava  beira das lgrimas. Por que no conseguia superar o hbito de chorar por qualquer bobagem? Era incapaz de vencer uma discusso, porque usava toda a energia para suprimir as lgrimas em vez de pensar em argumentos lgicos e convincentes. No podia chorar agora! Seria desastroso!
 Est vendo?  Rick apontou.  Voc  sensvel demais para esse trabalho.
Maravilhoso. Ele havia notado.
	Tive um dia horrvel, e estou exausta.
	Exausta? Mas voc ainda tem de redigir a matria e entreg-la antes do prazo final. Se quer fhesmo dedicar-se  carreira, vai ter de endurecer depressa.
	Obrigada pelo conselho.
	No foi um conselho. E, por favor, no escreva nada sobre o comportamento de Taylor Brown no vestirio, ou nunca mais conseguir entrevistar um jogador de futebol.
	De onde tirou a ideia de que eu escreveria algo a respeito? Pelo amor de Deus, eu no sou nenhuma estpida!
	Melhor assim, srta. Hall.
	Ivy.
	Sei que no  estpida, e por isso quero ajud-la. Sonny Collin foi meu treinador da Universidade, e acho que posso colaborar com a sua matria.
	Por qu?
	Porque... porque sou um cara legal  ele riu.
	Mas voc acabou de dizer que nessa profisso temos de ser duros, agressivos e coisas do tipo.
	Tem razo. Ento, porque voc  bonitinha.
Ivy encarou-o com expresso furiosa e, rindo, Rick exclamou:
 Ei, onde est seu senso de humor?
Sabia que no devia mostrar-se irritada, mas estava. Profissionais competentes e respeitadas no podiam ser chamadas de bonitinhas!
Mesmo assim, respirou fundo e sorriu, disposta a mostrar que tambm tinha senso de humor.
	Falando srio, estaria oferecendo ajuda se eu fosse um homem?
	J sei. Quer ser tratada como os outros colegas, no ?
	E isso mesmo.
	Ivy, entenda uma coisa de uma vez por todas. Voc no  como os outros. No ter os mesmos problemas que os rapazes e, ao mesmo tempo, enfrentar todas as dificuldades comuns aos novatos.
	Eu sei. S no quero ser protegida.
	Admito que senti um pouco de pena quando a vi naquele vestirio, mas depois percebi que sabe se defender. De qualquer maneira, ainda estou de frias, e no estou sofrendo a presso de um prazo, como voc. A edio vai para as bancas na manh de segunda-feira, o que significa que tem de entregar o artigo at amanh  noite... certo?
	Mais ou menos. O editor me pediu a matria para amanh de manh.
	Est vendo? Precisa de ajuda. Alm do mais, voc vai ficar me devendo essa. Se fosse um homem, eu estaria oferecendo o mesmo acordo.
 Agora parece mais justo  e apanhou o bloco de anotaes.
 Muito bem, vamos l!

CONFIANTE, O COLTS PREV VITRIA FCIL SOBRE A UNIVERSIDADE DO TEXAS
Ivy Hall

Sua primeira manchete assinada para o Austin Globe. Olhando para o jornal, Ivy ouviu a irm mais velha perguntar ao telefone:
	Tem certeza de que pode conseguir mais cpias?
	 claro que sim, Holly. Mas o que vai fazer com todos esses jornais?
	Vou enviar a metade para Laurel e Jack. Eles querem deix-los expostos na rea de recepo da agncia.
Ivy no pde conter o riso ao pensar na mais elegante das irms espalhando cpias do Austin Globe em sua igualmente elegante Agncia Hartman, em Hollywood. Admirando o artigo pela centsima vez, esperou que Holly terminasse de contar seus planos de distribuio e respirou fundo, explodindo de felicidade.
O artigo mencionava vrios aspectos da disputa, mas focalizava especialmente a inteno do zagueiro Taylor Brown de retomar a fama e o sucesso s custas da defesa do Longhorn.
 E acho que  to boa quanto essas matrias de primeira pgina Holly opinou, concluindo o discurso.
	A primeira pgina normalmente  reservada para os redatores mais experientes  explicou.
	Pois voc ser um deles antes do que imagina!
Sabia que Holly s queria encoraj-la, mas as vezes suas irms exageravam nas injees de nimo. No final da chamada, Ivy tinha certeza absoluta de que todos esperavam que fosse to bem sucedida quanto as irms mais velhas.
Minutos depois, quando Billie parou diante de sua mesa com um rolo de filme nas mos, Ivy ainda sentia-se deprimida com tantas expectativas em torno de seu futuro.
 O treinador Collin disse coisas importantes durante a entrevista comentou a fotgrafa.
 Honestamente, Billie, metade daquelas coisas ele declarou a Rick.
	Rick voltou?  e olhou em volta, tentando encontr-lo em uma das mesas.
	Ainda no  Ivy informou, lembrando-se de que no sabia a opinio dele a respeito de sua primeira matria para o Globe.
Na verdade, teria escrito o artigo sozinha, mas as informaes de Rick haviam acrescentado profundidade ao texto.
	Ouvi dizer que teve uma conversa interessante com Taylor Brown  Billie riu.  E ento? O vestirio era to ruim quanto imaginava?
	Se quer mesmo saber...
	Ah, a est ela! A mais nova campe de reportagem do Austin Globe!  Rick exclamou, sentando-se .na mesa ao lado da dela.
	Seja bem vindo, Rick.  Billie tocou um chapu imaginrio e desceu da mesa de Ivy, onde estivera sentada.  Est gostando desse calor infernal?
	V embora, Billie.
	Quando eu quiser, Rick  e permaneceu onde estava, os braos cruzados sobre o peito e os olhos fixos no rosto dele.
	Ah, vamos l, Billie. No precisa proteg-la de rnim. No sou nenhum inimigo.
	Mas  um homem.
	A mocinha sabe se defender melhor do que voc imagina.
Ainda no sabe o que aconteceu no vestirio do COLTS?
	 claro que sei! A cidade inteira j ouviu essa histria.
	O qu?  Ivy exclamou assustada.  Voc contou...? Rick, voc comentou o incidente envolvendo Taylor Brown?
	S com algumas pessoas...
	Est brincando?  Billie interferiu.  Ivy, voc  o assunto principal em todos os vestirios do pas!
	Oh, no!
Rick cruzou os dedos na nuca e apoiou os ps sobre a mesa:
Agora voc  uma lenda viva. Vai agradecer agora, ou prefere deixar para mais tarde?
Como espera que eu agradea?  Ivy perguntou-desconfiada, lutando para parecer agradvel e espirituosa.
No sei... O que acha de escrever meu artigo sobre a estatstica anual dos times universitrios?
Ivy engoliu em seco. Matrias estatsticas envolviam muita pesquisa e verificao, o que significava que era um trabalho duro e rido.
	S se puder assinar o artigo  ela disse.
	Fechado  Rick concordou imediatamente, tirando os ps da mesa e abrindo uma das gavetas.  Aqui esto os dados do ano passado.
Espantada, Ivy olhou para a pilha de pastas sobre sua mesa.
	Mas...
	Bom trabalho, colega  ele riu, levantando-se e saindo da sala.
	Acho que fui enganada.
	 claro que foi!  Billie exclamou.  Mas quem consegue resistir aos apelos de um homem to lindo?
Com o rosto vermelho, Ivy concluiu que ele era realmente bonito e que precisava tomar cuidado. Rick lhe prestara um favor e agora ela tinha a chance de retribuir, mas depois disso poria um ponto final nas trocas.
 Preciso ir  Billie avisou.  Nos vemos no jogo. E lembre-se, minha amiga, uma mulher tem de ser duas vezes mais competente que um homem para receber metade do reconhecimento. Felizmente somos brilhantes.
Ivy ainda estava verificando as pastas quando Boyd Harris, o editor, parou diante de sua mesa.
 Ivy, ouvi comentrios sobre o episdio com Taylor Brown, ,e acho que agiu muito bem. Gostaria de dizer que  um incidente incomum, mas estaria mentindo. Duvido que o time da Universidade do Texas crie o mesmo tipo de problema, mas os forasteiros e os profissionais...  e balanou a cabea com desnimo.  Seu artigo estava muito bom, especialmente se considerarmos o prazo curto, mas prefiro que siga os meus padres. Mais profundidade, est bem?
E a maior vantagem de se trabalhar para um jornal semanal. E precisa estabelecer um bom relacionamento com os atletas, ou jamais conseguir entrevistas realmente reveladoras.
Ivy respirou fundo. O que o editor diria se houvesse escrito a matria sem a ajuda de Rick?
 Sei o que quer dizer. Desta vez tive dificuldades para conseguir entrevistas publicveis.  No pretendia reclamar a respeito do treinador do time, mas tinha a obrigao de manter seu editor informado.
Afinal, ignorar o problema no contribuiria para solucion-lo.
Com os olhos fixos em seu rosto, Boyd Harris comentou:
	Foi voc quem pediu a matria.
	Eu sei, e gostaria de ser escalada para o jogo desta tarde.
	 claro  ele concordou sem hesitar.
Confiava nela! Agora poderia provar a Rick que era capaz de escrever um bom artigo sem nenhum tipo de ajuda.
 Rick tambm estar l.
Agora estava explicado. Por isso sua solicitao fora atendida de imediato. A presena de Rick garantia uma boa matria, mesmo que ela fracassasse.
O sorriso compreensivo do editor indicou que ele havia notado seu desapontamento.
	V com calma, Ivy. Ainda no chegou a hora de aventurar-se sozinha. Voc escreve bem, e logo ter adquirido toda a experincia necessria. Ah, e sobre a ltima matria... No gostaria de estar na pele de Taylor Brown quando a defesa do Longhorn ler suas decla raes.
	Obrigada.
	S mais um conselho, Ivy. No tente competir com Rick. Ele conhece todos os jogadores e treinadores, e tem uma experincia prtica que voc jamais poder ter. Ele foi um jogador. Contratei voc porque sei que tem potencial, e no quero que estrague tudo com rivalidades inteis. A propsito, quero que escreva o artigo sobre as estatsticas do ano passado. Rick costumava cuidar disso, mas acho que  uma boa maneira de conhecer melhor os times.
O sr. Harris saiu e Ivy ficou parada, atnita. Fora escalada para escrever o artigo sobre as estatsticas! Rick tentara cobrar o favor cedo demais. Bem feito!
Rick Scott. Era um homem bonito e atraente, cuja carreira promissora fora interrompida prematuramente por uma fatalidade. O fim de um sonho. O que havia realmente acontecido, e o como ele sentia-se a respeito de tudo o que sofrera?
Curiosa, Ivy decidiu visitar o arquivo do jornal, onde certamente encontraria mais detalhes sobre o caso. Afinal, h sete ou oito anos Rick fora notcia em Austin.
Depois de alguns minutos de busca encontrou o que procurava. A mesma expresso de dor que vira em seu rosto. Alguns exemplares o chamavam de Pobre Rick ao relatar a contuso que punha um ponto final em sua carreira, a ltima de uma srie iniciada no time do San Antnio Tigers, onde ele comeara. Naquela poca, Rick fora afastado do campeonato e havia perdido sua primeira chance de assumir a posio de titular.
Dois anos mais tarde, j no Wolves, Rick enfrentara nova contuso. Todos as edies discutiam os ferimentos ou a recuperao do atleta, questionando o momento exato para seu retorno aos campos. Sua carreira de profissional terminara aos vinte e cinco anos de idade, e o anncio de sua sada oficial do futebol, trs anos antes, era a ltima notcia a respeito do homem que um dia havia sido um dolo.
Rick fora o melhor num lugar que costumava transformar seus jogadores de futebol em heris, e agora era redator chefe de um jornal esportivo de porte mdio. Nem mesmo um dirio nacional...
Tinha todo o direito de ser amargo. Mas pelo menos sua carreira de atleta lhe deixara alguns contatos importantes, relacionamentos que ela no possua e para os quais no havia substituto.
Ivy olhou para o relgio e, surpresa, descobriu que havia passado mais de uma hora espionando o passado de Rick. Estava atrasada.
Quando chegou ao Memorial Stadium, vrias pessoas vestidas com as cores do time da Universidade do Texas lotavam os estacionamentos e entradas e, seguindo o fluxo de movimento, aproximou-se do porto principal e mostrou a credencial de jornalista.
Minutos depois encontrou a cabine da imprensa e, surpresa com a quantidade de pessoas, tentou localizar Rick.
Ele estava parado em um dos cantos da tribuna, preparando-se para ser entrevistado por uma emissora de televiso.
Trs minutos mais tarde j havia feito uma anlise concisa sobre as chances do Longhorn, o time que um dia ele levara ao Cotton Bowl, o mais importante campeonato do Texas.
Afinal, por que no havia se tornado um comentarista esportivo? Era desinibido, portava-se bem diante das cmeras e conhecia o assunto como ningum. Era bonito, e tinha um rosto capaz de encantar os telespectadores de todo o mundo.
	Ivy! Est atrasada!  ele exclamou, vendo-a junto  porta da cabine.
	Mas... o jogo ainda no comeou.
	Ivy, Ivy... O que vou fazer com voc? Queria aproveitar o tempo para apresent-la a algumas pessoas, mas agora ser impossvel.
	Oh! Eu sinto muito!
	Tudo bem. Depois do jogo vou tentar apresent-la a alguns integrantes do Longhorn.
A proposta era tentadora, mas Ivy queria vencer pelos prprios esforos. E no entanto... escrever o artigo no era o mais importante? No devia usar todas as facilidades de que pudesse dispor para conseguir boas entrevistas?
 Por que est querendo me ajudar?  perguntou, incapaz de ignorar a onda de gratido e confiana.
Rick sorriu:
 Porque voc  uma boa menina.
Novamente? No queria ser boa.
Sabia muito bem o que acontecia com as boas meninas.

CAPITULO III

Boas meninas terminavam cobrindo jogos infantis. ' A partida seguinte do Longhorn seria fora do estado, e Rick fora escalado para fazer a matria. Ivy recebeu a misso de cobrir a abertura da temporada de futebol feminino da Austin Youth Sports Association.
Futebol feminino. Infantil! Que perda de tempo para uma reprter esportiva.
A caminho do dever, Ivy parou em seu apartamento para fazer um lanche e aproveitou para verificar a secretria eletrnica.
O primeiro recado era de Holly, que queria saber qual seria a matria daquela semana e se havia alguma possibilidade dela ir  Dlias. Ivy no teve coragem de telefonar e dizer que estava cobrindoi futebol feminino infantil.
No segundo recado Holly informava que Laurel e Jack iriam ao Texas a negcios, e que gostariam de fazer uma reunio das trs irms em Dllas. A terceira mensagem era de Laurel, que perguntava se a caula da famlia poderia ir  Dllas.
Nesse ponto, Ivy j havia sado levando seu sanduche.
Minutos depois parou o carro no estacionamento do ginsio onde faria a matria, desembrulhou o sanduche e abriu a garrafa de diet soda. Amava as irms e gostaria muito de rev-las, mas elas a faziam sentir-se to inadequada...
Holly, a mais velha, era proprietria do Deck the Halls, uma firma de decorao natalina. Era to determinada, que teria sido um homem brilhante, no fosse pelo fato de ser esposa de Adam e me de Nicholas, um garoto encantador de dois anos de idade.
Laurel, a filha do meio, era a mais bela e sensual das trs. Ela: e o marido possuam uma agncia de talentos na Califrnia, a Hartman Agency, cujo sucesso estrondoso devia-se a uma estratgia de publicidade ousada e chocante. Laurel casara-se com um vestido vermelho que havia chamado a ateno de toda a sociedade local.
Ivy jamais teria coragem para uma atitude semelhante.
O treino de futebol estava marcado para as cinco e meia, e estava um pouco adiantada. Talvez devesse conversar com o treinador e algumas jogadoras, o que a pouparia de assistir ao treino completo.
Mordeu o sanduche e olhou para o relgio. Cinco e vinte e cinco, e nenhuma jogadora  vista.
Teria ido  escola certa? Embora fosse um ginsio, fora informada de que o time infantil treinaria ali. Estava revisando as anotaes quando um carro parou poucos metros  frente do dela. As portas se abriram e duas garotas desceram, usando shorts, camisetas e pro-tetores nas canelas. Atrs delas vinham as mes, uma carregando uma pequena maca e a outra levando uma geladeira de isopor.
Ivy embrulhou o que restava do sanduche, tampou a garrafa de soda e seguiu-as.
s cinco e quarenta, mais duas meninas foram deixadas pelos pais.
Nos quinze minutos seguintes, mais mes chegaram com geladeiras, cadeiras dobrveis, macas, provveis jogadoras e seus irmos menores.
As garotas corriam pelo campo ou brincavam na rea de estacionamento, mas nada indicava que o treino comearia em breve.
Afinal, quem era o responsvel por aquela baguna?
 Boa tarde. Meu nome  Betty Kay, e sou a organizadora do time  anunciou uma mulher com uma prancheta.  Venham assinar as fichas de inscrio, por favor. Preencham o formulrio de informaes mdicas e coloquem o nome que vo querer na camisa de suas filhas. As letras custam vinte e cinco centavos cada. Estou recolhendo o dinheiro hoje, e os uniformes estaro prontos para o nosso primeiro jogo.
As seis um homem com ar de empresrio chegou levando uma garota pela mo.
	Escutem, ser que no podemos marcar os treinos para s seis? Elaine tem aula de canto s quartas-feiras.
	Pergunte ao treinador  sugeriu uma das mes.  At agora, sua filha no perdeu nada.
O homem olhou para o relgio e Ivy imitou-o.
	Onde est o treinador?  ele quis saber.
	No sabemos.
	E quem  o treinador?
	No h nenhum treinador na lista de nomes  informou Betty Kay.
Todos olharam para ela.
 No olhem para mim!  Betty protestou.  J estou organizando o time, e no posso fazer tudo sozinha. Alm do mais, no sei como se joga futebol. Por que no voc, Bill?
Todos encararam o nico homem do grupo.
	Infelizmente no posso. Na verdade, devia estar no escritrio.
S sa para apanhar Elaine na aula de canto e traz-la para c. Est querendo dizer que no temos um treinador?
	A menos que algum se oferea nos prximos minutos...  Betty encolheu os ombros.
- Eu estou grvida  anunciou uma das mes.  Onde est Mary Ellen? O pai dela foi o treinador no ano passado. Duas garotas protestaram com veemncia:
	No! Mary Ellen jogava o tempo todo, e se o pai dela for o treinador ns ficaremos no banco em todos as partidas!
	Mas ela jogava muito bem  opinou outra me.
	 claro! Ela treinava mais que todas ns.
	De qualquer forma, Mary Ellen no se candidatou ao time este ano  informou Betty.  Portanto, duvido que o pai dela queira ser o treinador.
Ivy checou o relgio novamente. Seis e dez. O que poderia escrever? Tinha de redigir um texto, e depressa!
	Ol  disse, aproximando-se da organizadora do time.  Sou Ivy Hall, do Austin Globe.
	Uma jornalista! Qual das meninas  sua filha?
	Oh, no  ela riu.  Estou aqui para cobrir o treino.
	Ah  gemeu Betty Kay, depois de um silncio embaraado..
	Por que no telefona para a AYSA e pergunta o que aconteceu com o treinador?  Ivy sugeriu, dando uma rpida olhada nos papis da organizadora antes de prosseguir:  Vocs participaro de quatro partidas, e duvido que eles tenham marcado os jogos sem escolher  um treinador.
	O escritrio fecha s cinco e meia  Betty respondeu.
Ivy balanou a cabea, pensando em escrever alguma coisa sobre a desorganizao da Austin Youth Sports Association.
 L est Diane!  gritou uma das meninas, correndo ao encontro do furgo que despejava uma tropa inteira de bandeirantes uniformizadas.
A lder do grupo aproximou-se de Betty e perguntou:
	Ser que no podemos mudar o treino para as teras-feiras?
	Janette tem aula de piano s teras  protestou uma das mes.
A lder das bandeirantes tentou:
 Quinta, ento?
Mais duas mes balanaram as cabeas:
	Trudy tem aula de ginstica, e Sarah e Ruth Ann tm bale.
Ficariam cansadas demais para jogar futebol.
	Desculpem  Ivy interferiu , mas so seis e vinte. O treino estava marcado para as cinco e meia e vocs ainda no tm um treinador.
	Que tal M.J.?  sugeriu uma das mes.
A lder das bandeirantes ergueu as duas mos e exclamou:
 No posso fazer tantas coisas ao mesmo tempo! Esqueam!
 A AYSA no devia ter nomeado um treinador?  Ivy insistiu.
Betty Kay respondeu:
 Eles inscrevem o time, fornecem o material necessrio e as regras do campeonato, mas os pais devem cuidar do resto.
Ivy olhou para o grupo de mulheres reunido em torno da organizadora. As meninas brincavam em pequenos grupos, e apenas duas delas, as mesmas que usavam caneleiras e roupas apropriadas, pareciam interessadas nas bolas.
	Quando os pais devem escolher o treinador?  Ivy quis saber.
	No momento em que as meninas so inscritas e o time  formado  M.J. explicou.
Irritado, Bill interferiu:
 Acho que as crianas tm atividades em excesso. Elaine j tem suas aulas de canto s quartas-feiras. Ela gosta de canto, e no precisa de futebol. Parece que no h outro dia disponvel para os treinos, o que significa que vou levar minha filha para casa e esquecer esse assunto.
Espere um minuto  pediu Ivy.  Estamos apenas esperando que algum se oferea para treinar o time, certo?
Certo  Betty concordou.
Ivy olhou em volta e concluiu que, se o time fosse composto por meninos, os pais estariam brigando pelo privilgio de ser o treinador.
A propsito, onde estariam os pais daquelas garotas? Com os filhos, claro. Pais, filhos e esportes eram coisas que caminhavam de mos dadas. Mas meninas tambm precisavam da prtica esportiva.
Betty Kay suspirou:
 Tenho de ir para casa cuidar do jantar. Bill est certo. As meninas j tm ocupaes suficientes para preencher o ano todo.
Vou devolver o dinheiro das letras e vamos desistir do time.
Algumas meninas aproximaram-se para saber o que estava acontecendo.
	Quando vamos treinar?  perguntou Trudy.
	No conseguimos encontrar um treinador  explicou a me.
 E voc j tem suas aulas de ginstica.
Desanimada, Ivy pensou em escrever sobre a falta de interesse dos pais.
As meninas estavam desapontadas, mas aceitavam a deciso com resignao.
E isso era o que mais a aborrecia. Deviam protestar, exigir seus direitos com determinao e firmeza! Duas garotas permaneciam no campo, fazendo piruetas e batendo palmas. Curiosa, Ivy aproximou-se delas e disse:
	Ol. Quem so vocs?
	Eu sou Ruth Ann, e ela  Sara.
	No querem jogar futebol?
	No!  gritaram as duas.
	Por que no?
	Porque  muito sujo  disse Ruth Ann.
	E bale  limpo  Ivy completou.
	Sim, e podemos usar roupas bonitas para danar  sorriu Sara.
	Mas o futebol tambm exige uniformes completos.
	 diferente  protestou Ruth Ann.
	Ningum usa roupas brilhantes e tiaras nos cabelos para jogar bola  explicou Sara.
	Mas vocs podem ganhar um trofeu  Ivy insistiu.
	Futebol  um jogo de meninos  Ruth Ann declarou, fazendo mais algumas piruetas.
Irritada, Ivy concluiu que a prtica esportiva seria excelente para aquelas meninas. Agora voltariam para o bale, para o grupo de bandeirantes, para as aulas de canto e piano... Coisas de meninas.
Coisas absolutamente sem agressividade.
Coisas que a prpria Ivy teria feito.
No podia suportar. Pensou no vestirio do Colts, nas histrias de Billie e na agressividade que ela tinha de demonstrar para conseguir uma boa matria.
Aquelas meninas precisavam aprender a serem mais firmes, mais agressivas e menos conformadas.
As bandeirantes reuniam-se em torno da lder, que mantinha dois dedos erguidos num gesto de comando, e o restante das mes recolhia cadeiras, geladeiras e macas, preparando-se para partir.
Com o corao apertado, Ivy pensou em quantas daquelas crianas cresceriam como ela, doces, boas e tmidas, apreciadas por todos, mas incapazes de conquistar respeito.
De repente o rosto de Rick surgiu em sua mente. Gostava dela, mas no a considerava uma ameaa profissional. At o editor do jornal a protegia, impedindo que sasse sozinha para fazer matrias mais importantes.
Pensou em Billie, e em como ela tentava ajud-la  sua maneira. Na verdade, tinha de admitir que s era admitida em vestirios masculinos porque outras mulheres haviam lutado por esse direito.
Agora era sua vez de ajudar a prxima gerao de mulheres. Inici-las na prtica esportiva no era muito, mas era exatamente o que precisavam naquele momento, gostassem elas ou no.
	Esperem!  gritou.  Eu posso treinar o time.
	O qu?  perguntou Betty Kay.
	Disse que vou treinar o time.
As bandeirantes assobiaram e comearam a pular em volta da lder, fazendo Ivy ter certeza de que havia tomado a deciso certa. Os adultos pareciam aliviados, e Ruth Ann e Sara estavam visivelmente aborrecidas.
Muito obrigada!  exclamou Betty, preparando-se para preencher os formulrios.  Pode me dar o nmero de seu telefone, por favor?
Quando sero os treinos?  quis saber Bill. Segundas, quartas e sextas  Ivy anunciou, assustando-se com os protestos horrorizados do grupo.
	As regras s permitem dois treinos por semana  informou a organizadora.
	Segundas e quartas  decidiu.  s seis da tarde. Todos esto de acordo?
	Mas o jantar...
	Seis em ponto!  Ivy cortou com firmeza.  Mais alguma pergunta?
S esperava que ningum perguntasse quantas vezes havia jogado futebol, pois seria horrvel ter de confessar que no sabia absolutamente nada a respeito do jogo. Felizmente todos permaneceram em i silncio.
s seis da tarde da segunda-feira seguinte, Ivy estacionou o carro equipado com uma geladeira, duas macas, vrios cones de borracha e trs livros: Como Jogar Futebol, Regras Bsicas do Futebol e Futebol para Principiantes.
As mes j haviam chegado e conversavam em pequenos grupos, sentadas em cadeiras dobrveis que haviam instalado em torno do campo.
O editor a encorajara, dizendo que treinar o time infantil era uma excelente oportunidade para estabelecer relaes positivas com a comunidade esportiva, e Ivy escreveria uma srie de artigos sobrei sua experincia e o estado dos programas esportivos infantis.
No era futebol universitrio ou profissional, mas pelo menos teria seu nome e fotografia nos artigos semanais para o Austin Globe, e a chance de reconhecimento silenciou a voz interior que a prevenia sobre no estar perseguindo seus verdadeiros objetivos. Pelo menos agora teria algo de positivo para dizer s irms.
Queria contar a novidade a Rick, mas ele estava novamente fora; da cidade e no o via h dias.
Ivy apanhou apenas o livro relativo s regras e estratgias do jogo e, juntando-o s macas e  geladeira, dirigiu-se ao campo de treinamento.
Nos ltimos dias assistira a algumas partidas de futebol pela tev,j e quanto mais familiarizava-se com o jogo, mais tinha certeza de que era exatamente o que aquelas meninas precisavam para competira com os garotos.
Decidida, usou pela primeira vez o apito que recebera da organizadora. Atraiu a ateno de todos e preparou-se para dar as boas vindas, quando o tamanho do grupo a fez parar. O nmero de pais e meninas era duas vezes maior que o da semana anterior!
 Quem so todas vocs?  perguntou assustada.  A lista tem apenas quatorze nomes.
Betty Kay adiantou-se:
	Bem... as outras meninas so do time vermelho, e elas tambm ficaram sem treinador.
	Vermelho?
	 a cor do uniforme. Sugeri que viessem treinar conosco.
	Voc sugeriu?
	No se importa, no ?
	As regras no limitam o nmero de participantes de um time?
A lista tem apenas quinze espaos para os nomes.
	 verdade, mas preferimos esperar que voc decida quem vai fazer parte do time  sorriu Betty.
Que grande comeo! Presa numa armadilha armada pela prpria organizadora do time!
Com um suspiro, Ivy bateu palmas e gritou:
 Muito bem, todas sentadas no centro do campo!
Vinte e trs meninas entre oito e nove anos de idade a seguiram para o local indicado. O futuro das mulheres!
 Vamos comear pelas apresentaes. Quantas de vocs j jogaram futebol antes?
Apenas duas garotas ergueram as mos, as mesmas que haviam comparecido  primeira reunio usando roupas apropriadas e caneleiras.
 Por que no pergunta quem quer realmente fazer parte do time?  sugeriu uma das bailarinas.
Ivy fitou-a e sentiu que sua determinao aumentava. Algum dia a srta. Bailarina a agradeceria por ter sido obrigada a jogar futebol, quando descobrisse que as roupas bonitas no teriam sido suficientes para prepar-la para a vida.
Ivy usou o apito mais uma vez.
	Todas em p!  e apontou para uma das meninas uniformizadas. - Qual  o seu nome?
	Lanie.
Esto vendo as caneleiras que Lanie est usando? No prximo treino, quero todas vocs usando protetores como esses. E por favor, venham de camisetas e shorts que possam sujar. Deixem as roupas bonitas para passear.
Os protestos recomearam e Ivy silenciou-os com mais um apito.
 Hora do aquecimento. Trs voltas em torno do campo, correndo!
Quando todas terminaram o aquecimento, correndo ou realizando grand jets, Ivy ordenou que fizessem um pouco de alongamento, e desta vez as bailarinas foram as melhores do grupo.
Agora viria o mais difcil. O treino prtico.
	A primeira regra do futebol  que no podem usar as mos, e isso significa que tero de praticar o drible com os ps.
	Eu no vou estragar meus tnis chutando essa bola  gritou uma das meninas.
Ivy respirou fundo. Havia lido uma srie de livros tcnicos e estava tentando dar o melhor de si como treinadora, e o mnimo que esperava era que reconhecessem seus esforos e colaborassem.
Determinada, tentou demonstrar como deviam fazer para driblar um oponente, mas no teve muito sucesso. J vira vrias vezes o mesmo movimento nas partidas que assistira pela tev, e em nenhuma delas tivera a impresso de ser uma tarefa impossvel. Mas era.
 Lanie, venha me ajudar a dispor esses cones  pediu, arranjando o equipamento em duas fileiras de quatro cones cada.  Faam duas filas e driblem as barreiras de cones  ordenou, demonstrando o que esperava que fizessem.
Felizmente, desta vez conseguiu completar a tarefa de maneira satisfatria.
Dez minutos mais tarde, apenas metade das meninas haviam vencido os cones e, desesperada, Ivy abriu o livro em busca da tcnica do caranguejo que vira antes. Uma parte do grupo devia deitar-se no cho e fazer movimentos como os dos caranguejos, enquanto as outras tentavam passar por elas com a bola nos ps.
Voltou para o grupo que treinava com os cones e encorajou-as, mas quando retornou para verificar o jogo do caranguejo encontrou as garotas sentadas, conversando e tranando os cabelos umas das outras.
Irritada, Ivy ergueu os cabelos acima da nuca. O calor era insuportvel, e no podia culpar as futuras atletas pela falta de entusiasmo. Mas na segunda-feira seguinte seria feriado, e no poderiam treinar.  O primeiro jogo estava marcado para o sbado da semana seguinte,
e at l tinha de montar um verdadeiro time de futebol. Um time disciplinado e bem treinado...
Com um suspiro, tentou lembrar o nome do santo milagroso protetor dos esportistas.

CAPITULO IV

Rick desceu do Jeep e olhou em volta. Pensara muito  Ivy durante os dias que passara fora da cidade, e quando descobrira que havia sido escalada para cobrir o campeonato infantil, fora direto para o ginsio.
Ela era inteligente e brilhante, mas no tinha a agressividade e a persistncia necessrias a um bom reprter. E claro que o formato semanal do Globe era mais adequado que um jornal dirio, onde a presso era constante e intensa mas, mesmo assim, julgara Boyd Harris maluco por contratar algum como ela. Por outro lado, os dois reprteres anteriores haviam partido em dois meses, levados por jornais maiores.
Ivy era o tipo que ficaria para sempre. E ento, ele poderia partir, ou poderia comprar o Globe e ficar em Austin para sempre, ou -voltar para sua cidade natal e construir a casa de seus sonhos em Lakeway.
Mas no estava ali para tomar decises pessoais. Afinal, onde estaria Ivy? O som estridente de um apito ps um ponto final na busca. L estava ela, no meio do campo, cercada por um grande grupo de garotas e segurando uma bola.
Rick aproximou-se dos pais, mas ningum o reconheceu e ele ficou observando o treino, impressionado com a dedicao da colega. Fora enviada para cobrir o campeonato de futebol feminino infantil, e tentava aprender junto com as meninas. Pensando bem, Ivy poderia transformar-se numa grande reprter, especialmente se ele... Mas, que diabos as garotas estavam fazendo?
Arrastando-se pelo cho como caranguejos! Onde estava o treinador?
Ivy apitou novamente e Rick compreendeu tudo. Ela era a treinadora! Os pais conversavam entre si, totalmente alheios ao que acontecia no campo.
Mais de vinte meninas! Onde estavam os tcnicos auxiliares?
Disposto a descobrir o que estava acontecendo, Rick aproximou-se da mulher que carregava uma prancheta:
	Com licena. Aquela  a treinadora?  e apontou para Ivy.
	Sim, senhor.
	A nica? No tem assistentes?
	Ningum podia assumir a tarefa.
	Ningum?  e olhou para o grupo de adultos sentados junto ao campo.
	Eu sou Betty Kay, a organizadora do time, e j estou fazendo o meu trabalho. Ofereceu-se como voluntrio para alguma funo?
	Eu no sou pai de nenhuma das meninas. S vim assistir ao treino.
Desconfiada, Betty encarou-o e perguntou:
	Por qu?
	Porque sou amigo de Ivy. Ns trabalhamos juntos.  Pensou em apresentar suas credenciais, mas ento lembrou-se que usava uma camiseta sem bolsos.  Escute... ela est precisando de ajuda.
No pode treinar todas aquelas garotas sozinha.
	Ivy est fazendo um excelente trabalho.
Rick ps as mos na cintura e olhou para o campo. Observou o grupo de adultos, composto basicamente por mes com filhos pequenos, e imediatamente compreendeu como a colega transformara-se em treinadora.
De qualquer forma, ainda achava que ela precisava de ajuda, e por isso correu ao seu encontro, sentindo-se como um cavaleiro prestes a salvar a donzela em apuros.
 Ol.
Rick!  ela exclamou, surpresa com a coincidncia. Havia acabado de pensar nele e na possibilidade de pedir algumas explicaes sobre futebol.
estava vestido de maneira simples, um short velho e uma camiseta sem mangas cortada na altura da cintura. O joelho era um emaranhado e cicatrizes avermelhadas, e o par de tnis de corrida era da melhor marca disponvel no mercado.
ra um atleta. Com exceo do joelho, dava a impresso de estar em Plena forma fsica.
	O que est fazendo aqui?  ela perguntou.
	Vi seu nome na escala de trabalho. Pensei que estivesse fazendo uma reportagem, mas isso parece srio  e apontou para o apito que ela levava pendurado ao pescoo.
	Fazer reportagens  muito srio!
	Treinar um time tambm.
Notando o tom de censura, Ivy quis saber:
	H quanto tempo est aqui?
	O suficiente. Esse livro  sobre futebol para principiantes?
	No seja bobo!  exclamou, segurando o volume junto ao peito.   s um tratado sobre estratgias. O livro para principiantes ficou no carro.
	O que aconteceu com o verdadeiro treinador?
	No havia nenhum. O time estava prestes a ser desfeito, e eu me ofereci para ajudar.
	Entendo.
	No podia permitir que desistissem. E se quer saber minha;
opinio, acho que teramos ao menos uma dezena de treinadores sao time fosse composto por garotos.
Empolgada com o assunto, Ivy esperou e preparou-se para rejeitar uma resposta negativa.
 Voc est certa.
 Estou? Bem, meninas tambm precisam praticar esportes.
Rick respirou fundo, apoiando as mos na cintura. Em seguida abaixou a cabea, como se estivesse interessado em algum detalhe dos tnis, e depois olhou para o cu, aparentemente admirando d azul profundo.
Finalmente encarou-a novamente e disparou:
	Vou ajud-la a treinar o time.
Surpresa e agradecida, Ivy perguntou:
	Por qu?
 Porque voc fica bonitinha com esse apito no pescoo  ele riu.
Era um comentrio machista, mas sabia que no seria prudente discutir com seu salvador. Controlando-se com esforo, murmurou um agradecimento rpido e levou-o para o centro do campo.
 Vamos comear novamente, mocinhas!  Rick gritou, asso biando alto para chamar a ateno de todas.
Ivy usou o apito e no pde evitar uma comparao entre os sons. Rick havia demonstrado confiana, firmeza, enquanto ela s havia conseguido mostrar o pnico que ameaava invadi-la.
As garotas aproximaram-se como se fossem atradas por um im, e Ivy teve de admitir que teria feito a mesma coisa. Afinal, que mulher resistiria ao chamado de um homem como ele?
	So muitas meninas para um nico time  ele comentou em voz baixa.
	Eu sei. Mas o outro time tambm no tinha treinador, e a organizadora decidiu junt-los.
	Que maravilha! No podemos formar um time com esse nmero de jogadoras!
 No? Ento, por que no escolhe quais devem jogar?
Rick fitou-a com ar irritado e resmungou:
	Vamos dar um jeito nisso  e inclinou-se, usando o apito que ela mantinha preso ao pescoo.  Meninas, vamos ter de dividi-las em dois times. O...
	Vermelho  Ivy sussurrou.
	O time vermelho deste lado.
As meninas dividiram-se em dois grupos desiguais e, para equilibr-los, Ivy cedeu duas de suas jogadoras para a outra equipe.
	Qual  o programa?  Rick perguntou.
	Treinos s segundas e quartas, exceto no feriado da prxima segunda-feira. O primeiro jogo est marcado para o sbado da semana que vem.
	Certo... Vamos conseguir. Sim, vamos jogar futebol  e bateu palmas, como se quisesse convencer-se do que estava dizendo. Uma semana a partir do prximo sbado!
Rick sugeriu que conduzissem os treinos em conjunto, e ela sus-peitava de que esta era sua maneira de ensinar o jogo s meninas e a ela.
No treino da quarta-feira seguinte, Ivy notou que o nmero de  e irmos crescera de maneira impressionante. Havia apresentado  s mes no ltimo encontro, e a notcia de que o time seria treinado pela lenda viva do Longhorn espalhara-se como um incndio.
Enquanto as meninas terminavam o aquecimento, ela lembrou-se que ainda no sabia por que Rick fora procur-la. Virou-se para Perguntar, mas viu as cicatrizes em seu joelho e pensou se a atividade no seria prejudicial.
Como se pudesse ler seus pensamentos, ele correu para o centro do campo e chamou as meninas que compunham seu time, o Furaco Rick, deixando-a com a impresso de que em breve teria de enfrentar deseres entre as garotas do Esquadro Ivy, o nome que Rick havia sugerido para sua equipe.
Fora uma discusso exaustiva, mas finalmente todas haviam aceito a sugesto, depois de Ivy recusar o nome que elas haviam escolhido: O Maior F Clube do New Kids on the Block. O fato do nome no caber nas camisetas no parecia incomod-las.
De qualquer maneira, no podia culp-las por desejarem passar para o outro time. Se pudesse, ela faria o mesmo.
Uma hora mais tarde, Rick gritou:
	Bom treino! Lembrem-se que segunda-feira  feriado, e que nosso encontro acontecer na tera.
	No esqueam de rever as regras!  Ivy completou, disposta a mostrar que estava colaborando. Havia datilografado apostilas com todas as normas do jogo para que as meninas pudessem estud-las, e naquele dia distribura o material entre as duas equipes, que agora corriam para os pais.  Elas no vo ler as regras, vo?
	No  Rick respondeu.  Acha que devemos rezar por um temporal no sbado que vem?
	No, a menos que queira ficar molhado. Ningum concordaria em cancelar o jogo por causa da chuva.
Rick resmungou alguma coisa e foi recolher os cones do campo.
Observando-o, Ivy pensou em quanto ele a ajudara. Era difcil acreditar que um dia havia sido um dolo do futebol, porque no tinha aquele ar arrogante e insuportvel das pessoas famosas. Talvez a humildade fosse consequncia do acidente que interrompera sua carreira. Era um lder natural, e as meninas o admiravam mais a cada dia.
Teria sido um mito no mundo dos esportes, se as contingncias no o obrigassem a mudar o rumo de sua vida.
Como seria entrevist-lo? Ele certamente a trataria com cortesia e respeito, com a igualdade existente entre os bons profissionais.
	J agradeci por estar me ajudando?  ela perguntou minutos depois, quando caminhavam para o estacionamento.
	Mil vezes  ele riu.
	Mil e uma. Muito obrigada, Rick.
	No foi nada. O que acha de tomarmos alguma coisa bem gelada? Talvez um jantar...
Falava com tom casual, como se o convite fosse absolutamente normal e rotineiro.
E no era isso mesmo que desejava? Ser tratada como todos os outros colegas do jornal, sem protecionismos e delicadezas exageradas? Ento, por que estava to desapontada?
Infelizmente, no podia aceitar o convite.
	Sinto muito, mas preciso voltar para a redao. Tenho de terminar um artigo ainda hoje.
	O jornal tem uma bela coleo de mquinas de lanches e refrigerantes  ele riu.
Mais animada, Ivy colocou o equipamento de treino no porta-malas do carro e respondeu:
 Tem razo. Sabia que estou fazendo uma srie de artigos sobre minha experincia como treinadora?
- No diga! E eu pensando que havia concordado com a misso por razes humanitrias!
	Ah, mas eu teria aceito de qualquer maneira, mesmo que...
	Eu sei, Hall. Estava apenas brincando. Vou buscar meu carro e encontro voc na redao.
Ivy afirmou com a cabea, em silncio. Hall! Como se estivesse falando com um dos rapazes!
Minutos depois encontravam-se na sala deserta da redao do Austin Globe. Sentaram-se em suas mesas e, abrindo uma das gavetas, Rick recolheu um punhado de fichas e perguntou:
 O que vai querer?
Ivy j havia ligado o terminal de computador e, distrada, respondeu:
	Um diet qualquer coisa bem gelado, e um sanduche de qual quer coisa fresca.
	Volto logo  ele riu.
Quando Rick retornou, encontrou-a to concentrada que preferiu deixar o sanduche e a soda sobre a mesa, ao alcance de sua mo esquerda. Sem tirar os olhos do monitor, Ivy abriu a garrafa, bebeu alguns goles e recolocou-a no lugar de antes, retomando o trabalho.
Em silncio, Rick pensou nas centenas de reportagens que escrevera sob as mesmas circunstncias modestas, alimentando-se de sanduches, caf frio e refrigerantes quentes.
O que a levara a optar pela rea esportiva? No era uma atleta. Era delicada, pequena, doce... Sim, doce demais para esse trabalho, e acabaria sendo devorada por ele.
Ivy releu o que havia acabado de escrever e, com um suspiro, apertou uma tecla do computador, enviando a matria para o departamento de edio. Em seguida virou-se na cadeira, pegou a garrafa de soda e levou-a aos lbios.
	Est vazia  surpreendeu-se.  J comi meu sanduche?
	No  Rick sorriu, apontando para o lanche embalado em papel celofane.  Est bem a.
	Meu Deus! Agora vou ter de prov-lo  e removeu o plstico, mordendo o sanduche e fazendo uma careta engraada.
Rindo, Rick ps os ps sobre a mesa e disparou:
	Por que decidiu trabalhar como reprter esportiva?
	Porque sempre gostei de esportes. Meu pai me levava a todos os jogos do Dlias Cowboys e do Texas Rangers, e eu comecei a memorizar estatsticas. Papai me exibia para os amigos  riu.  Em que outra profisso eu poderia utilizar todos esses dados?

	Conhece os meus dados?
	Um metro e oitenta e cinco, oitenta quilos, olhos castanhos e um joelho contundido.
	Mas esses so dados pessoais!
	Eu sei.
	Memoriza as caractersticas de todos os jogadores?
	S dos mais famosos.
	E por que faz isso?
Ivy virou os olhos com ar entediado e jogou o resto do sanduche na lata de lixo:
	Quando digo que sou reprter esportiva, a primeira coisa que as pessoas perguntam  sobre os vestirios, especialmente as mulheres. Querem saber como  este ou aquele jogador, se  alto, baixo, musculoso... Acabei descobrindo que consigo escapar das perguntas quando recito as caractersticas dos sujeitos logo no incio da conversa. E tambm evito crticas  minha escolha profissional.
	Eu no ia criticar sua escolha.
	No?  e fitou-o diretamente nos olhos, fazendo-o sentir-se pouco confortvel.
No fundo, Rick a considerava sensvel demais. Estava prestes a emitir sua opinio, quando notou que ela olhava por cima de seus ombros com expresso atnita, como se houvesse visto um fantasma. Assustado, virou-se e viu uma loira exuberante e atraente, cujas curvas perfeitas eram realadas pelo vestido vermelho e justo.
 Ivy, querida, finalmente a encontrei!
Aturdido com a entrada sbita da desconhecida, Rick precisou de alguns instantes para perceber que ela chamara Ivy pelo nome.
	Laurel?
	Jack e eu telefonamos vrias vezes. Holly disse que tambm tentou falar com voc, mas...
	No passei em casa para verificar os recados na secretria eletrnica  Ivy cortou.
	H uma semana?
	Eu tenho andado muito ocupada.
Laurel olhou para Rick que, rpido, retirou os ps da mesa e levantou-se.
 Laurel, este  Rick Scott, o redator chefe do Austin Globe.
Rick, esta  Laurel Hartman, minha irm...
Enquanto estendia a mo para cumpriment-la, Rick ruminava a palavra irm e tinha a impresso de estar conhecendo muito mais a respeito de Ivy.
 ... e meu cunhado, Jack.
Jack estendeu a mo e Rick teve de soltar a de Laurel para cumpriment-lo. Era estranho, mas o marido no demonstrava o menor sinal de cimes. Pelo contrrio, parecia orgulhoso da beleza estonteante e envolvente de sua esposa.
 Prazer em conhec-los  Rick disse.  Estou gostando muito de trabalhar com Ivy. Ela  bastante talentosa  e pousou a mo na cabea dela, num movimento rpido e carinhoso.  No  sempre que se pode encontrar beleza e inteligncia na mesma embalagem.
Pronto. Talvez um pouco exagerado, cafona, mas pelo menos havia conseguido encaixar um elogio. Era o tipo de comentrio machista que ela odiava, mas desta vez Ivy no parecia aborrecida. Pelo contrrio, um sorriso radiante iluminava seu rosto cansado.
Laurel jogou os cabelos para trs, atraindo novamente a ateno de todos.
	Jack e eu viemos para a recepo oficial do governador.
	Que comeou h vinte minutos  Jack comentou com um sorriso compreensivo.
	A recepo que o governo est oferecendo para os produtores cinematogrficos do Texas? Li alguma coisa nos jornais, mas no sabia que vocs viriam  Ivy comentou, virando-se para Rick e explicando:  Jack e Laurel tm uma agncia de talentos.
	Se houvesse verificado os recados de sua secretria eletrnica, no estaria to surpresa.
	Ivy no teve culpa  Rick intercedeu, tomando sua defesa com velocidade espantosa. - Ela tem passado a maior parte do tempo aqui nas duas ltimas semanas. Todos ns temos trabalhado demais. Alm dos artigos normais, o Globe programou duas sries especiais, e Ivy  responsvel por uma delas. Estvamos terminando uma das reportagens quando vocs chegaram.
Laurel pensou em fazer mais perguntas sobre os artigos, mas Jack segurou-a pelo brao e disse:
 Temos de ir, querida, ou perderemos vrios clientes em potencial.
Laurel inclinou-se e jogou um beijo com a ponta dos dedos.
 Holly nos espera em Dlias amanh. Acha que pode tomar o caf da manh conosco?
Enquanto as duas traavam os planos para o encontro do dia seguinte, Jack despediu-se de Rick e murmurou:
 Cuide bem de Ivy.
 Prometo  Rick respondeu, sem pensar no que estava dizendo.
Jack beijou a cunhada, ps um brao em torno da cintura da esposa e empurrou-a delicadamente em direo a sada.
	Ento, essa  sua irm  Rick comentou quando ficaram sozinhos novamente.
	Uma delas.
O telefone sobre a mesa de Ivy tocou e ele aproveitou para observ-la, admirando a beleza dos cabelos castanhos longos e lisos.
Gostava dela. Era uma pessoa simples, e uma das poucas que no ficara fascinada com seu passado de dolo do futebol. Gostava de esportes, interessava-se por todas as modalidades e jamais ficaria aborrecida por ter de assistir a uma partida transmitida pela tev. Na verdade, at gostaria. No era to estonteante quanto a irm, mas isso a tornava mais interessante. Mulheres como Laurel davam muito trabalho.
Ivy desligou o telefone, notou que ele a observava e sorriu.
At aquele momento, Rick no havia notado o quanto seus sorrisos eram raros, e o quanto ficava bonita com aquela expresso mais suave.
	Voc tem um sorriso encantador  disse.
	O que  isso? Ttica de zagueiro?
	Talvez um passe mais atrevido.
	Ah...
Era irritante. Por que tinha de ficar vermelha com tanta facilidade? E desta vez sabia que o rosto no estava apenas ruborizado, mas iluminado como uma rvore de Natal. No sabia ouvir um elogio sem ficar vermelha, e nem criticas sem romper em lgrimas.
Por que no tinha a mesma segurana das irms? Rick estava flertando com ela e, no entanto, no sabia o que responder. Os homens sempre a haviam tratado como uma companheira, uma irm mais nova, e sentia-se confortvel com esse tratamento.
At aquele momento.
 Obrigada  murmurou, sentindo-se tola e inadequada.
Rick sorriu e ela sentiu o corao bater mais depressa.
Sempre censurara a irm pela maneira como atraa a ateno dos homens e sempre julgara-se acima de todas essas bobagens, mas agora, vendo aquele sorriso fascinante, descobria que estava enganada. Queria que ele a admirasse como mulher, e no como colega de trabalho.
 Aquele telefonema... Era algo importante?  ele perguntou.
	No. S algumas informaes que eu precisava para o artigo sobre as estatsticas.
	Ah... Desculpe ter empurrado essa coisa horrvel para voc.
Est precisando de ajuda?
Ento ainda no sabia que o editor lhe passara a incumbncia. Rpida, empurrou trs pastas que ainda esperavam sobre sua mesa e disse:
	E claro que sim!
	Eu, foi s uma gentileza. No pensei que fosse tirar vantagem do meu cavalheirismo.
	Rick?
	Sim?
	Obrigada pela ajuda, e... pelas coisas bonitas que disse h pouco.
Ele abriu a boca, como se pretendesse dizer alguma coisa, mas permaneceu em silncio.
	O que ia dizer?
	Eu... Bem, ia comentar o quanto seus olhos so bonitos, mas j deixei escapar um comentrio machista esta noite, e achei que o segundo poderia ser fatal.
Ivy fitou-o com expresso surpresa. Tinha de dizer alguma coisa! Mas no conseguia pensar em nada e, embaraada, olhou para a caneta que tinha entre as mos.
	Ficou aborrecida comigo?
	No  respondeu em voz baixa, cada vez mais envergonhada.
	timo. E quanto  ajuda, no precisa mais agradecer. Eu gosto de ser til, sabe?
Ivy encarou-o e sentiu que estava perdida. Perdida nos olhos castanhos e profundos e nas linhas que o tempo desenhara no rosto perfeito e fotognico.
Perdida numa paixo louca por Rick Scott.

CAPITULO V

No devia misturar romance e trabalho. Alm do mais, Rick podia ter uma namorada. Ou vrias.
Tratava todos com gentileza, e s estava tentando ser simptico. No havia motivos para imaginar um interesse especial. Se continuasse a reagir com exagero diante de demonstraes de amizade, acabaria expondo-se  humilhao e ao embarao pblico.
 Pronta para entrar, Hall?  Rick perguntou, apontando para a porta do vestirio.
Falando em humilhao e embarao...
	Pronta  ela respondeu com voz fraca.
	Ento, vamos em frente.
Apreciava as tentativas de encorajamento, mas preferia que elas no existissem. Era uma profissional, e devia estar acima de preconceitos tolos e aflies ridculas.
Passo a passo, foi se aproximando da porta enquanto as canes do time da universidade iam sendo abafadas pela distncia. Mais um jogo de futebol havia chegado ao fim, e a Universidade do Texas havia vencido um time de personalidades nacionais que fora dado como favorito. Os torcedores do Longhorn estavam eufricos.
Ela e Rick entrevistariam os perdedores.
Os treinadores j estavam permitindo a entrada da imprensa e Ivy tentava manter-se atrs do colega e protetor, sentindo dificuldade at para respirar. Todos falavam alto e ao mesmo tempo, e ela sentia vontade de gritar.
Finalmente alcanou a soleira. Rick entrou e um jornalista seguiu-o de perto, empurrando Ivy com brutalidade, e quando conseguiu recuperar o equilbrio e aproximar-se novamente, um brao enorme impediu sua entrada.
	No permitimos mulheres no vestirio.
	O qu?
	No pode entrar. Ordens do treinador principal.
	No pode impedir minha entrada.  um direito garantido pelas leis do pas.
	Eu no sei nada sobre as leis do pas, e o treinador disse que voc no pode entrar.
	Mas...
Os outros reprteres a empurravam com impacincia, ansiosos por concluir o trabalho do dia. Ivy tentou mais uma vez:
 Preciso entrevistar os jogadores  e mostrou a credencial que levava pendurada no pescoo.   o meu trabalho, e voc no tem o direito de prejudica-lo. Ningum pode impedir o trabalho da imprensa!
	Espere na sala de entrevistas.
	Os jogadores nunca vo para a sala de entrevistas! Eles seguem direto para o nibus do time! Alm do mais, tenho de falar com os treinadores.
Quando todos os reprteres conseguiram entrar no vestirio, o sujeito seguiu-os e fechou a porta.
Ivy no conseguia acreditar no que estava acontecendo. Como faria para encontrar a sala de entrevistas? Como poderia escrever seu artigo sem obter as informaes necessrias? Onde estava Rick? No, o problema no era de Rick. Tinha de aprender a lutar sozinha, sem depender da ajuda dele para trabalhar.
Respirando fundo, esmurrou a porta de metal e gritou:
 Eu tenho o direito de entrar!  e experimentou a maaneta.
 A porta est trancada! Isso  contra as leis de preveno de incndio!
Nenhuma resposta.
Ivy virou-se e percebeu os olhares curiosos dos torcedores que dirigiam-se ao estacionamento do estdio.
Desesperada, olhou em volta e ergueu a cabea, como se fizesse uma prece aos cus, e imediatamente encontrou a cabine de imprensa, por onde poderia alcanar a sala de entrevistas.
Pois bem, jogaria de acordo com as regras do adversrio. No criaria confuso, e depois escreveria um artigo claro e direto sobre o comportamento arbitrrio dos dirigentes esportivos.
Decidida, escalou a centena de degraus que levavam  cabine de imprensa, no topo do estdio, contornou a rea dos telefones e desceu o mesmo nmero de degraus at o trreo. Finalmente chegara  sala de entrevistas... que obviamente estava deserta. As divisrias de vidro permitiam uma viso clara do corredor interno, onde placas de orientao indicavam o caminho dos chuveiros e do estacionamento dos nibus dos times.
Ivy pressionou o rosto contra o vidro e tentou ver mais alguma coisa, mas sentiu-se como uma criana numa doceira. Tentando manter a calma, puxou uma cadeira e sentou-se num ponto estratgico, de onde poderia acompanhar toda a movimentao do corredor. Minutos depois levantou-se e, inquieta, andou de um lado para o outro at que, profundamente irritada, decidiu tentar entrar pelo lado dos chuveiros.
Percorreu o corredor interno at encontrar outra porta fechada e, depois de bater vrias vezes, foi atendida pelo mesmo sujeito que a impedira de entrar.
	Onde esto os jogadores?  perguntou, esticando o pescoo para tentar ver o interior do vestirio.
	Eles sairo em alguns minutos  disse o brutamontes, em purrando a porta com fora.
Num gesto desesperado, Ivy colocou o p na soleira e quase ficou sem ele, tal a violncia do porteiro. Indignada, retirou o p com rapidez espantosa e viu a porta fechar-se diante de seu nariz.
Era intil insistir. Resignada, voltou para a sala de entrevistas e preparou-se para esperar o tempo que fosse necessrio.
Vinte minutos mais tarde, os primeiros integrantes do time surgiram no corredor.
Rpida, levantou-se e abriu o bloco de anotaes, mas um deles fitou-a atravs do vidro e, sorrindo, passou a caminhar mais depressa.
Exatamente como esperava. No queriam ser entrevistados novamente. Haviam perdido depois de uma semana inteira de favoritismo.
Mesmo assim, tinha que tentar. Num movimento sbito, abriu a porta de vidro e correu atrs deles.
 Ivy Hall, do Austin Globe!  gritou.
Os atletas passaram a caminhar mais depressa, at que finalmente desapareceram no interior do nibus do time que j os esperava com o motor ligado.
Furiosa, voltou para dentro do estdio e esmurrou a porta do vestirio, que desta vez abriu-se logo na primeira tentativa.
Ningum. O lugar mido e quente estava absolutamente vazio, exceto por uma figura familiar e inquieta que andava de um lado para o outro, os olhos fixos no relgio.
	Rick!
	Ivy! Onde diabos voc se meteu?
	O treinador proibiu a entrada de mulheres no vestirio, e os jogadores se recusaram a falar comigo na sala de entrevistas.
	Eu j imaginava. Ele ficou furioso com a derrota do time, porque agora deixaram de fazer parte da lista dos dez melhores.
	E da? Acha que isso me consola?
 No  ele riu.  Venha, vamos tentar o vestirio do Longhorn.
Ivy respirou fundo e concordou, mas o que realmente desejava era enterrar a cabea no ombro de Rick e chorar at livrar-se da angstia e da indignao. Ele apoiou o brao sobre seus ombros, provocando uma profunda sensao de conforto e proteo, e de repente Ivy sentiu que fazia parte do time do Austin Globe. Formavam uma grande dupla.
Sorriu, prestes a dizer o quanto apreciava suas demonstraes de amizade, quando algo em seus olhos a fez parar. Era estranho, mas de repente teve a impresso de que ele a notava como mulher, e no como mais uma colega de trabalho.
Ivy reconheceu a expresso de imediato, porque j a vira milhares de vezes nos rostos dos homens que olhavam para Laurel. O prprio Rick observara sua irm daquela maneira.
Fitaram-se por instantes que pareceram interminveis, at que ele finalmente sorriu e afastou-se.
	Pronta?  perguntou.
	Pronta. Mas acho que todos os integrantes do time j foram embora  ela respondeu, tentando manter a calma.
	Est brincando?  Rick exclamou, abrindo a porta do vestirio e esperando que ela entrasse.  Eles venceram! So capazes de passar a noite toda aqui, contando histrias sobre como massacraram um inimigo que todos julgavam invencvel.
Era verdade. O time estava reunido e a atmosfera era absolutamente diferente. Rick apresentou-a a tantos treinadores e jogadores, que Ivy mal tinha tempo de fit-los antes de escrever os nomes no bloco de anotaes.
Ele mantinha-se a seu lado o tempo todo, e finalmente ela comeou a relaxar. Rick sugeria perguntas inteligentes, mostrava ngulos diferentes para um mesmo assunto e apontava os jogadores mais inclinados a dar entrevistas, e Ivy saiu do vestirio com um volume impressionante de informaes.
Estava bastante satisfeita, at que pde ler os artigos que escrevera para a prxima edio do Globe. Ento descobriu que, sem a ajuda de Rick, jamais conseguiria completar uma matria sobre futebol universitrio.
Quando seria capaz de redigir um bom artigo sozinha?
	Cinco voltas! Correndo!  Ivy gritou autoritria.
	Treinadora...!
	Sem reclamaes! Vamos l!
Estava sem a menor pacincia para lidar com as meninas. Na verdade, sentia-se furiosa consigo mesma, e estava extravasando no time de futebol. De qualquer forma, um pouco de exerccio no iria mat-las. Precisavam mesmo de mais resistncia fsica.
Bem, talvez estivesse mesmo exagerando um pouco. Ainda ruminava o fracasso do vestirio na semana anterior e sabia que o treinador infringira a lei, mas a menos que decidisse process-lo por descriminao, um movimento pouco inteligente naquela altura de sua carreira, o melhor a fazer era esquecer o assunto.
Conseguira escrever vrios artigos, todos graas  interferncia de Rick, e isso era o que realmente a aborrecia. Mesmo com a ajuda dele, continuava tendo ataques nervosos antes de entrar num vestirio, e quando estava do lado de dentro, era incapaz de pensar com clareza diante da menor possibilidade de um confronto com quem quer que fosse.
Quando seria capaz de trabalhar com maior tranquilidade? Tinha de endurecer, deixar.de ser a novata insegura que ainda era.
Tinha de tornar-se mais parecida com as irms.
Ivy usou o apito para encorajar as corredoras mais lentas. Ser tmida tornava o trabalho de reprter muito mais difcil e, s conseguiria seguir na carreira se endurecesse..
 Ei, v com calma  Rick resmungou atrs dela. - Se continuar desse jeito, seu time no vai ter energia para treinar.
	Elas precisam de exerccio.
	Exerccio, no exausto  e assobiou, chamando as integrantes
do time com um gesto rpido.
Ivy tambm apitou, s para que as meninas no pensassem que Rick estava dominando a situao sozinho.
Usando as mos para amplificar a voz, ele gritou:
 Quantas bolas ns temos?
Quase todas haviam trazido suas bolas, seguindo uma sugesto anterior do treinador de que deviam compr-las para que pudessem praticar em casa. Ivy surpreendeu-se ao ver que at as bailarinas possuam material esportivo prprio.
 Muito bem  Rick aprovou.  Formem quatro fileiras.
As garotas obedeceram de imediato e Ivy experimentou uma onda de inveja, reconhecendo a capacidade de liderana do colega. Felizmente conseguiu suprimi-la. Aquelas meninas estavam aprendendo lies valiosas, e no queria que crescessem como ela.
 Prontas? Muito bem, levem a bola at o outro lado do campo driblando as fileiras contrrias. Agora!
E elas foram.
Assim que iniciaram a tarefa, Rick aproximou-se de Ivy e cochichou:
	Qual  o problema?
	Estou furiosa comigo mesma.
	Por qu?
	Porque no consegui entrar naquele vestirio.
	No pense mais nisso. O que interessa  que agora j sabe que tem de insistir mais, ser mais firme.
	 esse o ponto! Nunca fui uma pessoa persistente, e nessa profisso a agressividade  uma arma quase vital!
 Est dizendo que sou agressivo?
 Voc no precisa usar agressividade ou persistncia. Conhece todas as pessoas do mundo dos esportes, e todos o conhecem. J reparei como trabalha quando est na redao. Nunca precisa tele fonar para ningum, porque eles correm atrs de voc o tempo todo.
Eu tenho de suplicar por uma informao, enquanto os artigos caem sobre sua mesa aos montes! E tudo porque  homem!
Lutando para conter o riso, Rick comentou:
 Acho que trabalho um pouco mais do que est insinuando e assobiou.
Imediatamente todas as integrantes do time pararam para esperar o novo comando. Aquelas meninas o idolatravam, e eram capazes de reconhecer at a diferena entre os sons dos dois apitos!
	Fileiras um e trs, corram at o outro lado do campo com as bolas. Fileiras dois e quatro, avancem e tentem impedir que elas consigam alcanar o objetivo!
	Rick, elas no vo entender o que quer que faam. So apenas crianas e...  e parou, surpresa ao ver que elas executavam a ordem sem a menor hesitao.
Era como se ele as dominasse por controle remoto! Vrias garotas caam e levantavam com esforo e, atento, Rick consultou o relgio e anunciou:
	Vamos terminar cinco minutos mais cedo. Elas esto cansadas.
	No!  Ivy protestou com tom spero.
	Por que no?

	O que acha que vai acontecer numa partida de verdade se voc continuar mimando as meninas durante os treinos? Elas precisam adquirir resistncia!
	Ivy, isso aqui  s diverso.
	Mas elas podem aprender alguma coisa enquanto se divertem.
	E o que acha que elas devem aprender?
Queria que aquelas meninas fossem tratadas da mesma forma que os garotos, para que um dia, quando tivessem de entrar num dos vestirios da vida, nunca sofressem a mesma humilhao ela havia experimentado.
	Se fossem meninos, tambm encerraria o treino mais cedo?
	Ivy, vai fazer outro discurso feminista?

	Eu nunca fiz discursos feministas. Preciso aprender a ser mais firme e agressiva, e aquelas meninas precisam da mesma coisa. Se a prtica esportiva funciona para os garotos, deve funcionar para elas tambm.
	E voc decidiu assumir o papel de salvadora da irmandade das mulheres.
Ivy sentia vontade de estrangul-lo. Tentando manter a calma, ps as mos nos bolsos das calas e disse:
	S quero que trate essas meninas da mesma maneira que trataria um time de garotos.
	Como quiser. De qualquer forma, j so sete horas. Posso encerrar, treinadora?
Ivy cerrou os punhos dentro dos bolsos. Se estivesse sozinha, estenderia o treino mais dez ou quinze minutos mas, sem outra alternativa, agarrou o apito e soprou com raiva.
O som deve ter sido parecido com o que Rick produzia, porque as meninas pararam de imediato e viraram-se para receber as ordens. Depois de dispens-las com um gesto de mo, Ivy comeou a recolher o equipamento.
Dirigiram-se ao estacionamento em silncio, e Rick s voltou a falar quando chegaram aos carros.
 Vou tentar evitar qualquer tipo de descriminao durante os treinos  e atirou o equipamento dentro do porta-malas.  Mas acho que existe muita agressividade no esporte infantil, e no vou permitir que as meninas pensem que vencer  o mais importante, entendeu?
	Tambm no gostaria que isso acontecesse. S quero que as garotas conheam o esprito de disputa que os meninos adquirem desde cedo. Quando entro num vestirio, sempre tenho a impresso de estar num espao que no me pertence.
	Os homens sentem a mesma coisa quando entram num salo de beleza.
 Acontece que eles no so obrigados a frequentar sales de beleza! Por favor, Rick, tente entender! Ele respirou fundo e, srio, respondeu:
 Quero que veja uma coisa. Pode dispor de uma ou duas horas?
No podia, mas a ideia de passar mais tempo ao lado dele era tentadora.
 Acho que sim  disse, tentando esconder a ansiedade.
	Otimo!  Rick exclamou, entrando no carro e ligando o motor.
 Sou voluntrio numa instituio chamada CAEP. J ouviu falar?
	No.
	Ento, pegue seu carro e venha atrs de mim. Quero que veja quais so as consequncias de excesso de agressividade nos esportes.

CAPITULO VI

Yvy seguiu-o por ruas estreitas at pararem diante de .uma casa velha e mal cuidada, onde uma placa rstica indicava que haviam alcanado o destino.
A sede do CAEP ficava na parte mais pobre da cidade, longe da universidade e dos prdios mais elegantes do centro, num bairro de baixa renda evitado at pelo mais pobre dos estudantes, sem os adesivos cor de laranja do Longhorn ou quaisquer outros sinais de vida acadmica. Um lugar que Ivy preferia no visitar depois do pr-do-sol. E j estava escurecendo.
Esperava um escritrio instalado perto do centro comercial da cidade, ou prximo de um dos muitos cafs de Austin onde pudessem jantar.
V sonhando, Ivy.
Andava sonhando demais desde aquele momento de proximidade no vestirio. Parte dela queria acreditar que as demonstraes de amizade de Rick eram pessoais, mas sabia que ele tratava os outros colegas da mesma maneira cordial.
Sempre respondia s perguntas de todos com o mesmo tom atencioso, gentil nas crticas e generoso com os elogios, o tipo de lder que inspirava confiana e induzia os subordinados a produzirem cada vez mais.
Teria sido um esportista brilhante. Ivy pensava na carreira dele com frequncia desde que lera os jornais antigos no arquivo do Globo. Rick no demonstrava nenhuma amargura, mas era bvio que devia abrigar ressentimentos. Talvez estivesse prestes a conhec-los.
Ele a esperava ao lado do Jeep e, forando um sorriso, Ivy foi ao seu encontro.
 Aqui estamos  Rick comentou, apontando para a placa de madeira.
Estava nervoso, o que significava que importava-se com o que ela pensava a respeito daquele lugar. Notando sua ansiedade, Ivy decidiu que demonstraria interesse e entusiasmo.
 CAEP vem de Comit de Aconselhamento para o Esporte Profissional, o que j d uma ideia do que fazemos aqui. Vrios ex-atletas oferecem aconselhamento a jovens interessados no esporte profissional, e fora das temporadas conseguimos at alguns atletas que ainda esto na ativa para nos ajudar.
Continuou explicando as atividades do CAEP com tom ansioso, e Ivy surpreendeu-se ao ver o famoso Rick Scott gaguejando como um estudante nervoso.
Disposta a mostrar interesse, ela perguntou:
	A organizao  nacional?
	Infelizmente no, mas temos planos de faz-la crescer cada vez mais.
Aproximaram-se da porta e ela notou o pssimo estado de conservao da casa, to velha e desbotada quanto as vizinhas. Talvez o interior estivesse em melhores condies.
No estava.
A porta abria-se para uma rea de recepo como a de um consultrio, com paredes cobertas por fotos de antigos jogadores de futebol. Rick no fazia parte da galeria, o que no a surpreendeu. Era modesto, e raramente falava sobre a carreira relmpago de atleta.
Sorrindo, tentou fingir que no notara a moblia velha, as rachaduras sobre a porta e o buraco no carpete. O nico som em toda a casa era o de uma mquina de escrever.
	Linc ainda est aqui  Rick comentou, batendo com os dedos numa divisria de vidro.  Lincoln Thomas, secretrio, recepcionista e um dos conselheiros. Linc, esta  Ivy Hall, reprter. Ela trabalha comigo no Globe.
	Lincoln Thomas?  ela exclamou surpresa.  O beque do Cougars?
	Sim, senhora  Lincoln sorriu.
Ivy introduziu a mo pela abertura da divisria e ele parou de datilografar para cumpriment-la.
 Aposto que vai ficar feliz quando o CAEP contratar uma secretria  ela riu.
 No, senhora. Eu sou o secretrio. Tenho cinco irms mais velhas, e minha me sempre disse a elas que aprender datilografia era uma maneira de evitar o desemprego. Quando eu completei quinze anos, datilografar j havia se tornado um hbito da famlia. Felizmente decidi seguir o conselho de minha me, porque nunca tive tempo para concluir os estudos.
Ivy estava mais impressionada por ele ter sobrevivido  cinco irms mais velhas do que por ser um secretrio.
	Rick, verifique os recados  Lincoln sugeriu.  Acho que um deles exige ateno imediata.
	Obrigado  respondeu, apontando para o sof e virando-se para Ivy.  Se quiser esperar aqui, voltarei em um minuto.
E saiu da recepo em seguida, deixando-a sozinha com Lincoln.
 Sente-se  Lincoln sugeriu.  Eu adoraria lhe mostrar a casa, mas sei que Rick quer fazer as honras. Alm do mais, tenho muito trabalho para terminar  e voltou a concentrar-se na mquina de escrever.
Sentada no sof antigo e desbotado, Ivy deu uma olhada nas revistas empilhadas sobre a mesa de canto, material esportivo ultrapassado e alguns jornais financeiros velhos.
Algum havia feito um grande esforo para tornar o lugar mais agradvel, e era bvio que a casa j fora utilizada como consultrio mdico ou dentrio antes de servir como sede do CAEP.
O carpete tinha vrias manchas e pequenos buracos, e a moblia velha demonstrava uma falta de interesse tipicamente masculina.
Pensando bem, Rick jamais teria tempo para decorar o lugar. Alm das matrias que fazia para o Austin Globe, tinha de preocupar-se com o time de futebol e o trabalho de voluntrio no Comit, o que deixava pouco tempo para qualquer outra atividade.
De repente sentiu-se culpada por t-lo envolvido em sua aventura como treinadora. Felizmente a temporada terminaria antes do feriado de Ao de Graas, e poderia retribuir o favor citando seu nome na srie de artigos sobre futebol. Talvez um dia pudesse at ajud-lo, s para variar.
Alguns minutos mais tarde, Rick apareceu na porta e convidou:  Venha conhecer a casa.
Ivy aceitou de imediato e seguiu-o, ouvindo as explicaes que ele cochichava.
	Lincoln disse que temos duas sesses em andamento, o que significa que temos de ser silenciosos.
	Quem esto atendendo?
	Dois rapazes que foram cortados do time da Universidade do Texas porque no conseguiram as notas necessrias para comear os cursos que haviam escolhido. Ns conseguimos aulas particulares para os dois.
E deviam estar pagando por essas aulas. Em silncio, Rick abria e fechava portas para que ela pudesse conhecer todos os aposentos, e at permitiu que escutasse um pouco das sesses em andamento. Numa delas, um rapaz recebia aulas de matemtica. Na outra, outro rapaz e seu conselheiro, um ex-atleta, verificavam o catlogo de cursos da Universidade do Texas.
Ao fechar a porta, Rick sussurrou:
 Aquele  Mark Butler. Ele estava prestes a iniciar a carreira de profissional, quando machucou-se num treino. Nenhum outro time o quis depois da contuso, e eu o convenci a voltar a estudar. Agora ele trabalha aqui conosco.
Ivy verificou sua lista mental de dados estatsticos, mas no conseguiu lembrar-se do nome. Pelo menos Mark Butler tivera o bom senso de retomar os estudos, e felizmente pudera continuar estudando sem a bolsa oferecida a todos os atletas universitrios.
Enquanto visitavam todos os aposentos da casa, Rick ia falando sobre os outros conselheiros, todos atletas que, por alguma razo, haviam sido obrigados a abreviar suas carreiras. Isso a fez perceber que, mesmo famosos, aqueles homens deixavam de existir na memria do pblico assim que abandonavam o cenrio esportivo. Lembrou-se de vrios atletas e imaginou o que estariam fazendo agora. Um artigo sobre ex-atletas e suas ocupaes atuais poderia interessar ao editor do Globe.
A cozinha e a sala de jantar haviam sido convertidas numa pequena lanchonete.
	Quer beber alguma coisa?  Rick ofereceu, verificando o contedo da geladeira.
	Uma soda, se for possvel.
Sentaram-se em uma das mesas e, apoiando a perna na cadeira mais prxima, Rick massageou o joelho num gesto quase automtico.
Parecia cansado, e era pouco provvel que tivesse tempo para relaxar nos prximos trs dias, prazo em que teria de entregar um artigo para o jornal.
	Como encontra tempo para trabalhar no CAEP?  Ivy admirou-se.
	Eu fao meu tempo. Especialmente para isso  e suspirou.
 Muitos dos rapazes que vm nos procurar no puderam fazer carreira no esporte profissional. No tm emprego, e tm poucas chances de conseguir um bom trabalho porque, ou abandonaram a escola, ou no aprenderam o necessrio durante o tempo em que estiveram nela. Todos acreditavam que seriam famosos e ricos. So vtimas da ideia de que vencer  tudo.
	Pelo menos no so vtimas do conceito de que boas meninas no tm grande capacidade mental.
	E voc ?
	De certa forma... Minhas irms e eu fomos criadas com a ideia de que havia papis bem definidos para meninos e meninas.
Holly, minha irm mais velha, recusou-se a aceitar o conceito, e Laurel agarrou-se a ele como a nica regra de sua vida. E eu era a garotinha do papai.
	E mesmo assim, decidiu ser. reprter esportiva...
	Isso mesmo  e suspirou, disposta a mudar de assunto.  Tambm pensava que seria famoso e bem-sucedido?
	 claro que sim. O nome disso  autoconfiana. Se no acredita que  capaz de fazer alguma coisa, como poder convencer o resto do mundo?
	Est falando de mim?
 Se a carapua serviu...
Ivy desviou os olhos.
	Ei!  Vendo que ela no o encarava, Rick tocou-a delicadamente no queixo e a fez virar o resto.  Eu s...
	No precisa se desculpar. Tenho plena conscincia de minhas fraquezas, mas tambm sei que posso e vou aprender  e sorriu, vendo um brilho de aprovao nos olhos dele.  S estou preocupada com os enganos que tenho cometido no processo.
Rick retribuiu o sorriso:	:
	Se existisse um CAEP na poca em que me tornei profissional, eu teria evitado uma srie de erros.
	Eu li as reportagens de quando machucou o joelho  Ivy confessou.
	Ento, j deve imaginar o que aconteceu. Num minuto eu estava no topo do mundo, dono de tudo, e de repente... puf! No tinha mais nada, E a culpa foi toda minha.
	Voc no teve culpa de contundir-se!
	No, mas no devia ter jogado naquele dia. Meu joelho ainda no estava curado, e mesmo que estivesse... No devia ter enfrentado a defesa adversria como se estivesse num tanque de guerra. Foi estupidez!
	E por que fez isso?
	Porque estvamos tentando vencer, e vencer era tudo  e inclinou-se, apoiando os cotovelos sobre a mesa.  Trouxe voc aqui para que visse o que acontece quando as crianas so foradas a aceitar esse tipo de mentalidade. E ns da imprensa temos boa parte da responsabilidade.
	Ei, espere um minuto...
	 verdade, Ivy! Os vencedores so transformados em deuses, e os perdedores so sacrificados. Ns influenciamos a opinio pblica sem considerar a condio humana dos atletas.
Ento ele realmente preocupava-se com as pessoas!
Uma onda de admirao invadiu-a, seguida por uma imensa vontade de toc-lo.
Jamais desejara um homem como o desejava naquele momento. Irradiando sinceridade, ele permanecia sentado do outro lado da mesa, os cabelos claros iluminados pela luz dourada do sol que penetrava por uma janela prxima. De repente Ivy sentiu um enorme desejo de acariciar aqueles cabelos, de sentir a maciez dos fios espessos sob os dedos.
Rick usava uma camiseta justa que delineava os msculos de seu peito com nitidez e, tentando conter os impulsos que ameaavam domin-la, Ivy sentou-se sobre as mos.
	Voc tem medo de que eu faa as meninas do time acreditarem que vencer  tudo  ela concluiu.
	S estou pedindo que v com calma, est bem?
	Est bem, desde que voc prometa que no vai amolecer com elas.
	Combinado  ele sorriu, estendendo a mo.
Ivy aceitou o cumprimento e surpreendeu-se com o choque proveniente do contato. No queria interromp-lo e, por isso, segurou sua mo por mais tempo que o necessrio.
Atrada pelo olhar hipntico e intenso, foi incapaz de desviar os olhos onde estampavam-se seus mais profundos sentimentos. Ainda sorrindo, Rick interrompeu o contato.
Ivy respirava com dificuldade, o peito apertado como se houvesse corrido durante uma hora. As mos tremiam e, horrorizada, voltou a ocult-las sob a pernas. No podia deixar que ele percebesse o que sentia.
 Quando decidiu trabalhar para o CAEP?  perguntou, tentando distrai-lo.
Rick piscou vrias vezes antes de responder:
	Um ano depois de me afastar definitivamente do futebol. Um antigo treinador me convidou para visitar a sede e fazer uma palestra para alguns ex-atletas, e eu fiquei impressionado com o trabalho que a entidade estava desenvolvendo.
	Quem financia as atividades do Comit?
	Vivemos de doaes.
	E voc  responsvel por uma boa parte delas, certo?
	Algumas  ele riu.  Afinal, eu sou uma espcie de diretor da entidade.
	Como assim?
	Ivy, est falando como se quisesse me entrevistar.
	Estou intrigada com sua atitude, e  natural que fique curiosa  ela defendeu-se.
	No h nada de to impressionante. Eles achavam que... Bem, que os jovens viriam procurar o servio de aconselhamento se sou bessem que eu estava ligado ao CAEP.
	E no  verdade?
	No. Se quer mesmo saber, no temos sequer a metade dos clientes que espervamos.
Ivy sentiu vontade de abra-lo.
	Acho que o CAEP tem sorte por t-lo na diretoria  ela disse com sinceridade.
	Obrigado.
	E talvez as pessoas no procurem o servio de aconselhamento por falta de informao. Se eu fosse jogadora de futebol e visse seu nome ligado ao programa da entidade, viria imediatamente.
	Voc no conta. Est apenas fascinada com minha personalidade encantadora  ele riu.
	Na verdade, estou admirada com essas roupas esportivas  Ivy respondeu, aceitando a atmosfera divertida e descontrada.  Voc fica bem bonitinho com esse short de corrida.
	Ah, est tentando me deixar encabulado.
	E quase consegui.
Rick resmungou alguma coisa e riu:
 Eu sempre esqueo que as garotas so doces e apimentadas.
Continue assim, Hall.
Desta vez foi Ivy quem ficou vermelha. Embaraada, sentiu uma imensa onda de alvio ao perceber que Rick no havia notado.
	Sabe de uma coisa?  ele prosseguiu.  No consigo entender porque no somos procurados. Os servios so gratuitos! As palestras so bastante concorridas, mas quando um atleta vem nos procurar, raramente aparece para a segunda sesso de aconselhamento. Acho que  porque insistimos muito na questo dos estudos, na importncia de no abandon-los. Gostaria de saber o que fazer.
	Eu... Rick, tentei encontrar uma maneira de dizer isso sem parecer esnobe ou ftil, mas j pensou em melhorar um pouco a aparncia deste lugar? Talvez uma nova decorao...
	Decorao custa dinheiro.
	No tm um oramento para manuteno?
	Manuteno  uma coisa, usar o dinheiro das doaes para comprar moblia e cortinas  outra!
	Se as pessoas realmente no voltam depois da primeira visita, talvez seja hora de investir um pouco na imagem do CAEP.
	No temos dinheiro para jogar fora com um decorador famoso e excntrico.
	Mas voc no precisa contratar um decorador.
	No preciso mesmo. Temos um sof e duas cadeiras na recepo. E da que no combinam? As pessoas no vm aqui para ver a moblia.
	Mas, Rick, aquelas coisas parecem restos do quarto de um homem solteiro!
Ele sorriu:
	Eu queria que os rapazes ficassem a vontade.
	No oferecem os servios de aconselhamento para mulheres atletas?
	 claro que sim. Isto , se elas nos procurarem...
	Sei que no pode comprar loua fina para o banheiro e cristais importados, mas...  e parou, invadida por uma sbita inspirao.
 Quando jogava futebol, seu time no usava um uniforme?
	Sim  Rick admitiu com cautela.
	E todos os membros do time usavam o mesmo uniforme?
	Sim.
	Por qu?
	Porque  assim que se distingue os bons dos maus garotos  ele brincou.
	E por que os times no usam a mesma cor de camisas?
	Porque isso no seria muito... profissional.
	Ah... E ter a aparncia de um profissional  importante. Melhora o rendimento do time, certo?
	No... Sim... Quero dizer, todos so membros do mesmo time, e o uniforme  um smbolo de unio.
	Mas no  necessrio para quem quer jogar futebol.
	Acho que no.
	O que acha que aconteceria se todos quisessem economizar dinheiro e decidissem usar as camisas que tm em casa?
Rick riu com vontade.
	Ningum levaria o time a srio. Em alguns casos, a aparncia  muito importante e...  e parou, sentindo que dissera exatamente o que ela esperava.  Oh, no! Ca na sua armadilha como um pato! Est tentando me dizer que esta casa  horrvel, certo?
	Certo.
	E acha que isso  realmente importante?
	Quando um garoto procura um time de futebol e  contratado, os treinadores e empresrios falam sobre o dinheiro que ele pode ganhar, os carros e as casas que poder comprar e coisas do tipo. 
A maior parte deles nasceu e cresceu em vizinhanas como esta, em casas muito parecidas com esta, e isso  justamente o que eles querem deixar para trs.
	Pensei que as pessoas se interessariam pelo que temos a dizer, e no pelo lugar onde estamos.
	Rick, estamos falando de alguns gales de tinta e pequenos reparos no carpete da recepo! Isso j serviria para mudar a aparncia deste lugar.
	Tinta? Nada de papel de parede florido?
	Papel de parede custa muito dinheiro. Ns mesmos podemos pintar esta casa. Eu ajudaria...
	Est falando srio?
	 claro que sim!  uma forma de pagar o favor que me prestou com o time das meninas.
	No foi nada. Eu gosto de bancar o treinador.
	E eu gosto de brincar de decoradora  ela riu.  Depois, se ainda restar algum dinheiro, poderemos pensar na moblia. Eu sei como economizar at o ltimo centavo.
	Sabe de uma coisa? Voc  o mximo!  e segurou o rosto
dela entre as mos, beijando-a com entusiasmo.
Antes que Ivy pudesse perceber o que estava acontecendo, Rick j havia se afastado.
 Linc!  gritou, levantando-se com um movimento gil.  Abra o cofre! Vou sair para comprar tinta. Venha, Ivy. Quero que me ajude a escolher as cores.
Mas Ivy ainda estava sentindo os efeitos daquele beijo rpido.
Imvel, viu que Rick aproximava-se da porta e decidiu que o seguiria assim que as pernas voltassem a funcionar normalmente. Havia muita tinta a ser comprada, cores a serem escolhidas, sofs a serem trocados... e lbios a serem beijados. Pelo menos, era o que ela esperava.

CAPTULO VII

Mas no houve outro beijo naquela noite, e nem ,-em qualquer outro dia daquela semana.
A princpio Ivy sentiu-se confusa e desapontada, mas depois disse a si mesma que devia estar aliviada por Rick ter esquecido o episdio e voltado a trat-la como todos os outros.
O sbado finalmente chegara, e o time de Ivy havia acabado de vencer sua primeira partida. Sem tirar a camiseta de treinadora, correu para a redao do Globe, pronta para atirar a vitria aos ps de Rick.
Encontrou-o falando ao telefone e, incapaz de interromp-lo, Ivy sentou-se diante do computador e comeou a escrever o artigo semanal sobre o Esquadro Ivy. Era maravilhoso descrever uma vitria depois de duas semanas detalhando os treinos.
Digitou o ttulo.
Ele ainda estava falando ao telefone e tambm no havia tirado a camiseta vermelha do Furaco Rick, o que significava que viera direto do campo de futebol, como ela.
Insegura, Ivy apagou o ttulo que havia escrito e digitou-o novamente.
Tambm- no gostou e apagou-o mais uma vez.
Olhou para Rick, mas ele estava fazendo anotaes e parecia totalmente alheio ao que acontecia  sua volta.
Ivy aproveitou para observ-lo mais atentamente. Especialmente as pernas, onde as cicatrizes no joelho eram a nica mcula na imagem de atleta perfeito. Com um tom dourado e saudvel, elas sobressaam de mais um dos muitos shorts de corrida que ele usava nos dias quentes, pretos, brancos e coloridos, de algodo ou tecido acetinado que realava a solidez dos msculos bem torneados.
Felizmente o clima no Texas era quente durante boa parte do ano.
Infelizmente, isso ameaava acabar com sua paz de esprito. Finalmente Rick desligou o telefone e perguntou:
	E ento?
	Vencemos!  ela explodiu, esperando pelas palavras de aprovao.
	Que bom  Rick respondeu, ajustando o monitor.
	E o seu time?  Ivy perguntou.
	O qu?  ele j havia comeado a digitar e, aparentemente distrado, fitou-a por alguns instantes antes de informar:  Acho que o outro time marcou mais gois, mas as meninas jogaram muito bem.
Ivy pensou em demonstrar solidariedade, mas era bvio que Rick no estava disposto a conversar. O que era natural. Seu time havia perdido uma partida, e isso o desanimava.
E agora ela tambm sentia-se desanimada.
Com um suspiro, escreveu outro ttulo para o artigo semanal e parou. Isso era ridculo! Absurdo! Pensar em Rick j estava afetando seu sono, seu trabalho e toda sua vida!
Alm do fato de trabalharem para o mesmo jornal, no havia nenhuma outra razo pela qual no pudessem tentar um relacionamento. Eram solteiros, e romances com colegas de trabalho eram apenas inconvenientes... mas no proibidos. Afinal, qual era o problema?
O problema era que estava esperando que Rick desse o primeiro passo. E por qu? Para evitar a vergonha de ser rejeitada.
Mas Rick no corria o mesmo risco? Sabia que no o rejeitaria, mas no o deixara conhecer seus sentimentos. Estava tentando ser mais firme e agressiva, no? Ento?
A nova Ivy pigarreou:
	Esta tarde estarei livre para procurar a moblia. J temos um oramento?
	Moblia?  Rick repetiu com expresso confusa.
	As liquidaes, lembra-se?
 Ah, sim  e levantou-se, aproximando-se dela e lendo por cima de seus ombros.  Esse ttulo est desprovido de emoo.
Ivy respirou fundo:
 Vou tentar melhor-lo.
timo. E trate de se apressar, porque ainda temos de visitar uma ou duas lojas de mveis.
	Que entusiasmo!
	Desculpe  ele tentou sorrir, sem conseguir o efeito desejado.
 Perdemos dois conselheiros do CAEP na ltima semana, porque no havia trabalho suficiente para todos.
Ento, era isso.
.  Rick, por que no .me contou?  A nova Ivy respirou fundo, reunindo coragem.  Estive pensando... vocs precisam de publicidade. Quero escrever uma srie de artigos sobre o CAEP.
	O Globe jamais os publicaria. Eu escrevo para eles, lembra-se?
	Eu tambm, e estou trabalhando nos artigos sobre futebol feminino. O sr. Harris costuma apoiar a participao dos reprteres em atividades da comunidade. Eu posso discutir o assunto com ele.
	Duvido que ele concorde.
	Rick, ele sabe que voc trabalha como voluntrio para o CAEP?
	No sei  e encolheu os ombros, sorrindo com certo entusiasmo.  Pois bem, v em frente. Fale com ele, e vamos ver o que consegue  e afagou seus cabelos como se estivesse lidando com uma criana.  E agora, trate de melhorar esse ttulo.
Ivy tentou imaginar o que Laurel teria feito nessas circunstncias, mas em seguida .concluiu que ningum jamais afagara os cabelos da irm daquela maneira. Nem mesmo quando era uma garotinha.
A nova Ivy no estava conseguindo grandes progressos.
Ivy concluiu que era utopia esperar que manchas de tinta agissem como um afrodisaco.
Rick pintava uma das paredes da rea de recepo do CAEP e, sob o avental, ela podia ver os msculos de suas costas trabalhando ativamente. Msculos maravilhosos, ligados a ombros igualmente incrveis que suportavam a cabea de um homem nico e admirvel.
E pintar era a nica coisa que ele tinha em mente. Fora assim nos ltimos cinco dias.
Pois ele que esperasse at que o artigo sobre a entidade fosse publicado. O sr. Harris mostrara-se entusiasmado, conforme ela esperava, e Rick teria mais clientes do que jamais havia imaginado.
Com um suspiro, Ivy inclinou-se para retomar a tarefa e sentiu o rabo de cavalo mover-se pelas costas. Segurou-o para evitar que
mergulhasse na lata de tinta, mas esqueceu que as mos estavam sujas e acabou passando tinta azul nos cabelos.
Talvez assim pudesse atrair a ateno de Rick.
No sabia como flertar, porque jamais sentira necessidade de aprender. Tinha mais amigos que amigas, e sabia muito sobre os homens. Eles confiavam nela e costumavam inclui-la no crculo de confidncias, tratando-a como parte do grupo, e ocasionalmente alguns at a convidavam para sair.
Mas nenhum deles sentira-se confiante a ponto de ultrapassar o estgio da amizade sincera, e Ivy nunca se importara com isso... at conhecer Rick. Com ele tudo havia sido diferente desde o incio, e queria muito mais que sua amizade.
Na verdade, queria que ele a beijasse imediatamente, mas no sabia o que faria se o sonho se tornasse realidade. A nova Ivy ainda tinha muito o que aprender.
	Ivy, pare de sonhar e trabalhe! Quero terminar esta sala antes do treino das meninas.
	 claro!  ela respondeu com entusiasmo exagerado, atraindo um olhar surpreso e curioso. Embaraada, sorriu com ar doce.
Estava descobrindo que pintar no era uma atividade to divertida quanto havia imaginado. Era aborrecido, repetitivo, e Rick reclamava o tempo todo sobre as manchas e os espaos que ela deixava sem tinta. Estavam usando um tom claro de azul que combinava com a cor predominante do tapete, pea que serviria de base para a decorao.
Haviam removido o carpete velho e manchado sob o qual descobriram um piso de madeira de boa qualidade, que ficaria encantador depois de lixado e polido. S esperava que Lincoln reconhecesse os benefcios trazidos pelo esforo fsico de encerar o cho.
Fizera um trabalho espetacular no sbado anterior, quando sara com Rick para comprar a moblia. Depois de ajud-lo a escolher o tapete, sugerira que o sof velho no realava as qualidades da reproduo quase perfeita de um Persa, mas que o mvel exposto na loja seria absolutamente adequado.
Depois disso, Rick no oferecera resistncia para comprar as poltronas azuis que combinavam com a cor predominante do tapete, e nem a samambaia e os dois vasos de cermica com folhagens exuberantes. E ainda tinham dinheiro! Quando terminassem a pintura, a recepo do CAEP seria um ambiente sbrio e elegante, sem os exageros que Rick tanto temia.
Ivy suspirou. Depois de todas as horas que havia passado lixando e pintando paredes, esperava ao menos um jantar de gratido num lugar agradvel, com recantos aconchegantes e garons discretos, um campo neutro onde ela e Rick pudessem encontrar-se como homem e mulher.
Um som metlico do outro lado da sala a fez voltar  realidade:  Hora do treino de futebol  Rick anunciou, os olhos fixos no rosto dela.
O que estaria vendo? Teria finalmente notado que era uma mulher desejvel, apesar da tinta e das roupas velhas que escolhera para o trabalho? Talvez estivesse pensando em como era bonitinha...
No era o mesmo que ser julgada charmosa ou envolvente, mas j era um bom comeo. Bonitinha era melhor que companheira.
Rick deixou o pincel sobre a lata de tinta e sorriu. Hipnotizada pelo sorriso fascinante, Ivy retribuiu.
Ele comeou a aproximar-se devagar, como um animal selvagem prestes a atacar a presa magnetizada, e Ivy sentiu o corao bater descompassado.
Finalmente ele parou, os olhos fixos em seus lbios. Ia beij-la!
Sentiu o calor daquele corpo forte e musculoso cada vez mais perto e ouviu o som da mquina de escrever de Lincoln, que parecia imitar os tambores de uma tribo indgena. As rvores alm da janela lanavam sombras estranhas sobre o rosto de Rick, transformando sua expresso em algo primitivo. Elementar.
Homem.
Mulher.
Rick ergueu a mo.
Ivy fechou os olhos e levantou a cabea. Inclinou-se na direo dele e antecipou o prazer de sentir aqueles lbios sobre os seus, certa de que ele a tocaria como os homens tocavam as mulheres desde o comeo do mundo.
O ritmo dos tambores tornou-se frentico.
 Voc est com os cabelos cheios de tinta.
Ivy parou no meio do caminho. Os tambores silenciaram, ela abriu os olhos e viu Rick estudando seu rabo de cavalo.
 Tinta seca. Devia ter mais cuidado.
Mas no tivera, e agora tambm no abrigava pensamentos cautelosos. Alimentava ideias selvagens, quase violentas.
Sem pensar, levantou a mo e passou o pincel sobre a cabea de Rick.
 Voc tambm devia ser mais cuidadoso  disse.
Agora sentia-se vingada e satisfeita.
E extremamente tola e infantil. Acabariam perdendo a hora do treino das garotas.
E que importncia tinha isso? Acabara de humilhar-se preparando-se para um beijo que no havia acontecido, porque Rick no estava interessado nela. E se no estava interessado depois de cinco dias de proximidade, provavelmente jamais estaria. O que significava que merecia a faixa de tinta que tinha sobre a cabea.
Rick permaneceu imvel, limitando-se a encar-la. Uma gota de tinta correu por seu rosto e Ivy tentou limp-la com o dedo, deixando ura rastro leitoso ainda maior.
Inabalvel, Rick estendeu a mo para receber o pincel que ela ainda segurava e, como se despertasse de um sonho, piscou ao receber a ferramenta. Rpido, olhou para a prpria mo e descobriu que ela o entregara com a parte felpuda para a frente, o que significava que agora estava ainda mais sujo que antes. Em silncio, Rick deixou o pincel sobre a lata de tinta e limpou a mo no pedao de pano que levava no bolso do avental.
 Sabe de uma coisa?  perguntou em voz baixa, concentrado na tarefa de limpar-se.  Acabei de perceber que existem relaes onde as regras so mudadas constantemente, e sempre pelas mulheres.
Por exemplo, uma mulher que decide entrar numa rea predominantemente masculina... como jornalismo esportivo, por exemplo.
Apreensiva com o rumo da conversa, Ivy mordeu o lbio e esperou em silncio.
Rick prosseguiu, ignorando as gotas de tinta que escorriam de seus cabelos.
	Ela quer ser tratada como um homem, mas no o tempo todo.
 uma mulher, mas os homens no devem notar.
	Rick...
	Mas ns, animais cheios de luxria, acabamos notando  ele continuou.  E nossos comentrios so considerados machistas e constrangedores. De qualquer forma,  o homem quem deve perceber a mudana de regras e compreender que os avanos deixaram de ser constrangedores para serem at esperados.
Ivy baixou os olhos, mas Rick tocou-a no queixo e a fez encar-lo.
 O que acontece com os pobres homens incapazes de ler pensamentos, Ivy?
	Acabam com tinta nos cabelos  ela murmurou.
Ele aproximou-se, os olhos fixos nos dela.
	E o que acha que acontece com a mulher?
Ivy tentou sorrir:
	 beijada?
 S se admitir a mudana nas regras do jogo  e fitou-a de maneira intensa, como jamais a olhara e como ela sempre havia
sonhado.  E ento? As regras mudaram?
Ivy deixara de ser um dos companheiros. Agora via desejo nos olhos castanhos, e um arrepio imediato percorreu seu corpo.
Com as mos em suas costas, Rick puxou-a para mais perto, devagar e decidido.
	Isso vai complicar as coisas  ele sussurrou.
	Vamos deixar para pensar nisso mais tarde  Ivy respondeu, sentindo a onda de calor que brotava do centro de seu corpo.
Os lbios encontraram-se hesitantes, como se ainda no houvessem tomado uma deciso definitiva, mas em seguida o beijo tornou-se mais profundo e ela ergueu-se na ponta dos ps para abra-lo como h tanto desejava.
Beijou-o com todo o ardor que represara durante semanas, provocado pela proximidade constante e pela admirao que ele fora capaz de conquistar. Beijou-o com amor.
Amor? Quando seus sentimentos haviam se transformado em amor?
Quando discutiram os planos de decorao para a casa velha e mal cuidada? Quando ele oferecera-se para treinar um time de garotas, apesar do joelho problemtico? Ou h alguns instantes, quando ele a olhara como um predador diante de sua presa?
Qualquer que fosse a resposta, estava muito  frente dele. Rick acabara de not-la como mulher, e ela j atrevia-se a pensar em amor!
Finalmente ele afastou os lbios dos dela e abraou-a com ternura, enterrando o rosto em seus cabelos. O que a fez lembrar...
 Rick, se no tirar essa tinta da cabea agora, jamais conseguir livrar-se dela.
 Eu raspo a cabea  ele sussurrou, beijando-a novamente.
Agora Ivy conhecia o significado exato da expresso cair de amor.
Estava literalmente caindo, mergulhando e flutuando, e tudo ao mesmo tempo! Rendeu-se  euforia por mais alguns instantes e finalmente conteve os impulsos, obrigando-o a afastar-se.
 Pretende raspar a cabea s seis da tarde?
Rick piscou e respirou fundo, apoiando a testa contra a dela.
	Futebol  suspirou.
	Futebol  Ivy repetiu com um sorriso.
	Isso cansa!  Ruth Ann resmungou.  Gostaria de estar fazendo outra coisa.
Eu tambm, Ivy pensou, lembrando-se dos braos de Rick em torno de seu corpo.
	No sei por que sou obrigada a treinar se nunca participo dos jogos  Ruth continuou com as reclamaes.
	Jogaria mais vezes se treinasse com mais empenho, como Lanie.
	O irmo de Lanie a ajuda, e eu no tenho irmo.
	Eu tambm no  Ivy insistiu, tentando fazer a garota compreender que um irmo no era indispensvel para meninas bem sucedidas no campo esportivo.
	Todas as garotas do time do treinador Rick participam do jogo.
	E no conseguiram vencer, lembra-se?
O treino havia comeado h quinze minutos sem a presena de Rick, que ainda estava tentando livrar-se de toda aquela tinta. Ivy havia conseguido limpar-se em poucos minutos e concordara em cuidar dos dois times sozinha at que ele chegasse.
Era o mnimo que podia fazer.
E era uma excelente oportunidade para exigir mais das garotas do Furaco Rick. Organizara uma partida, e as meninas do Esquadro Ivy estavam ganhando sem a menor dificuldade. quela altura, podia dar-se ao luxo de colocar as reservas em campo.
Usando o apito, indicou que faria alteraes e ordenou:
 Ruth Ann, entre no lugar de Lanie.
Depois de mais algumas substituies, Ivy aproximou-se das integrantes do time adversrio. Havia feito uma observao cuidadosa, e escolheu as melhores jogadoras para disputar o restante da partida,
apesar dos protestos das outras que, indignadas por perderem a vez, gritavam e batiam os ps.
Uma atitude tipicamente feminina, que Ivy decidiu ignorar. Firme, apitou novamente e reiniciou a partida.
Rick chegou no exato instante em que seu time marcava um gol.
	Muito bom!  gritou, pondo as mos em concha em torno da boca. Virando-se para Ivy, sorriu e perguntou:  Como vai indo?
	Muito bem.
E agora, o que devia fazer? Receb-lo com um beijo, ou passar um brao em torno de sua cintura?
Rick sorriu novamente e ps as mos nos bolsos do short.
Pensando bem, estava criando muita confuso por causa de um nico beijo. Afinal, Rick podia no sentir as mesmas coisas que ela. Se pelo menos lhe desse algum sinal...
Se pelo menos ela lhe desse algum sinal... Como um homem podia saber o que uma mulher estava pensando sem que ela o ajudasse?
Na ltima vez em que julgara-se senhor da situao, acabara com a cabea cheia de tinta. Quantos problemas poderia ter evitado se tivesse beijado Ivy na primeira vez em que sentira vontade.
Por outro lado, beij-la no vestirio do Colts no teria sido uma atitude sensata.
 Treinador Rick?
Rick sorriu para Ivy e virou-se para atender a garota que acabara de cham-lo.
	O que foi, Trudy?
	Ela no me deixou jogar  e cravou os olhos em Ivy com rancor evidente.
	Talvez no seja sua vez.
	 minha vez! Mas ela escalou Colleen, e na posio de goleira novamente!
	Trudy, Ivy formou um time misto porque eu cheguei atrasado.
Vamos retomar nossa rotina em segundos, est bem?  e segurou-a pelo brao, empurrando-a delicadamente na direo das companheiras.
Assim que ela afastou-se, Ivy explicou:
 No era um misto. Organizamos uma partida e meu time estava esmagando o seu, e decidi escalar as melhores do Furaco Rick para equilibrar o jogo. Colleen devia ser a titular na posio de goleira.
Ela j pegou trs tiros!
	Eu sei que ela  tima, mas se a escalar como titular, as outras no tero chance de jogar nessa posio.
	Ento, deviam praticar mais para aprender com ela.
 Isso no interessa  Rick respondeu com tom irritado.
Mas no queria irritar-se. No depois daquele beijo, quando sentira que o mundo estava sendo invadido por um exrcito de cores. Quem conseguia discutir depois de um beijo to delicioso?
	Espere um pouco  Ivy protestou.  No seu time, vocs no trocavam de posio a cada partida!
	Aquilo era diferente.
	Por qu? Por que era um time masculino e adulto?
	Ivy...  e respirou fundo, disposto a manter a calma.  O objetivo de iniciar crianas na prtica esportiva  ensinar os fundamentos de algumas modalidades e incutir esprito esportivo, sejam meninos ou meninas.
	E por que as crianas no podem vencer enquanto aprendem tudo isso?
	Porque existem coisas mais importantes que vencer  ele afirmou, passando um brao sobre seus ombros e puxando-a para mais perto, certo de que seria o bastante para encerrar a discusso.
Mas, para sua surpresa, Ivy afastou-se com um movimento brusco e persistiu:
	No estaria dizendo isso se o time fosse masculino!
	 claro que estaria.
	Se o Furaco Rick fosse composto por meninos, treinaria o time da mesma maneira?
	No. Meninos e meninas tm diferenas fsicas que no podem ser ignoradas, e que exigem tticas diferentes. Alm do mais, meu time acabou de marcar outro gol. O segundo desde que cheguei aqui.
Ivy fitou-o com ar superior e informou:
	Isso muda o placar para onze a dois.
	 mesmo?  ele sorriu.  Fico feliz por meu time, mas o que houve com as suas garotas?
 Elas marcaram os onze gois.
Surpreso, Rick comentou:
	Meu time pode at perder a partida, mas pelo menos todas as garotas participam.
	As meninas tm de aceitar a competio, Rick. Aprendi que para viver num mundo masculino, onde os homens fazem as regras, as mulheres tm de aprender a pensar como homens, ou jamais sero levadas a srio.
Rick havia notado algumas mudanas no comportamento de Ivy nas duas ltimas semanas, e sentia-se orgulhoso de sua firmeza e agressividade. Mas agora ela comeava a ir longe demais.
Ela prosseguiu:
	Est sendo muito mole com essas meninas. Elas no vo que brar! Acho que devia trat-las como faria com um time de garotos.
	Ivy, por acaso j leu o regulamento da Austin Youth Sports?
Todas as crianas tm de ter uma chance de jogar!
	Mas todas elas tm uma chance. E as melhores participam dos jogos que valem pontos. Se as outras melhorarem, tambm podero participar. Por que devo punir as jogadoras mais aplicadas obrigando-as a ficar no banco? Elas devem ser recompensadas! Se as outras tambm quiserem jogar, tero de tentar com mais empenho.
	Como elas podem tentar, se no jogam? Acho que devia rever suas prioridades, Ivy.
	De jeito nenhum! Ser membro de um time vencedor  importante, e  assim que o mundo funciona. Os mais fortes transformam-se em vencedores, e j  hora dessas meninas aprenderem tudo isso.
Rick abriu a boca para protestar, mas percebeu que seria intil. Ivy no estava disposta a ouvir opinies divergentes da sua.
	No vamos discutir, est bem?  sugeriu.
	Mas isso  srio, Rick. Eu fui protegida e poupada durante toda a infncia, e agora estou sofrendo muito para superar minhas fraquezas.
	Tudo bem, Ivy. Eu estou amolecendo um pouco, mas voc est exagerando na mesma medida.
Ela ficou em silncio. No concordou de imediato, mas era bvio que pensaria no assunto mais tarde. Rick estendeu a mo para enla-la pela cintura, mas Ivy pulou sobressaltada, como se temesse uma agresso.
 Ei, relaxe!  ele riu.  Jamais beijo um colega durante os treinos.  uma espcie de norma.
 Espero que no!  ela exclamou com o rosto vermelho.
Rick sorriu, abraou-a e pxou-a para mais perto, disposto a infringir a norma que acabara de mencionar.
No quero estragar tudo o que vivemos juntos  ele prosseguiu.
Definitivamente, era o velho discurso sobre no estragar uma bela amizade. Por que imaginara que desta vez seria diferente? S por que seus sentimentos eram diferentes?
Ele havia pressentido o amor crescente que comeava a tomar conta de seu corao, e conclura que no podia correspond-lo.
Se fosse muito, muito cuidadosa, talvez pudesse terminar a discusso com o orgulho e a amizade de Rick intactos.
 Valorizo muito nossa...  e parou. Estava buscando a palavra mais adequada, e Ivy no o ajudaria sugerindo o termo amizade. -Amizade.
Droga! Era melhor acabar de uma vez com aquela tortura.
 E no quer fazer nada que possa prejudic-la ou atrapalhar nossa relao profissional, certo?  e encarou-o, obrigando-se a sorrir.
	Certo  Rick concordou com alvio evidente.  No poderei v-la com muita frequncia fora da redao. Voc entende, no?
	E claro que entendo. J ouvi isso antes. Na verdade, eu mesma j disse isso antes. Foi bom enquanto durou, certo? 
	Errado  e segurou seu rosto entre as mos.  Acho que no fui muito claro  e beijou-a.
Ivy havia perdido toda a esperana de ser beijada novamente, e por isso ficou perplexa.
A princpio experimentou apenas surpresa, mas depois a presso dos lbios de Rick provocaram uma resposta. Fechando os olhos, sentiu que todos os sentidos concentravam-se naquele beijo.
As mos dele deslizaram por suas costas, puxando-a para mais perto, e Ivy abraou-o e deliciou-se com a firmeza dos ombros que tanto admirava. Segundos depois, quando os lbios finalmente afastaram-se, ela confessou:
	Pensei que quisesse ser apenas meu amigo.
	A amizade  importante, mas tenho mais coisas em mente  murmurou, abraando-a e deslizando os lbios por seu pescoo.
	Pensei que estivesse tentando dizer que no queria mais encontros como este.
	Ao contrrio. Mas acho que devemos ir mais devagar...
Ivy engoliu em seco. Sabia que sua inexperincia era evidente como se usasse uma placa no pescoo, e ele devia estar aborrecido
com tanta ingenuidade. De repente sentiu vontade de telefonar para Laurel e pedir alguns conselhos.
	Estou tentando dizer que no me importo de diminuir o ritmo  Rick sorriu.
	No?  Ivy perguntou surpresa, a esperana aquecendo seu corao.
	Meu Deus! Para duas pessoas que trabalham na rea de comunicaes, estamos nos comunicando muito mal.
 Acho que agora entendi a mensagem.
 Acha? Ento, vamos ter certeza. Certeza absoluta  e beijou-a novamente.
Alguns minutos mais tarde, Rick observava as luzes do carro de Ivy se afastando.
Era doce, o que significava que podia ser magoada.
S esperava no ser justamente a pessoa que a magoaria.
A primeira pgina. Inteira! Com uma foto colorida e o nome completo!
Sentada em sua mesa, Ivy leu mais uma vez a primeira pgina do Austin Globe, empilhando as cpias que enviaria s irms, aos amigos e aos conhecidos distantes. Agora Holly ficaria realmente impressionada.
Virou-se na cadeira e viu a rosa amarela que encontrara sobre sua mesa naquela manh. No havia um carto ou um bilhete, mas sabia que a flor fora deixada por Rick. Feliz, deixou uma cpia do jornal com o artigo sobre o CAEP em cima da mesa deie.
Nas ltimas duas semanas, quase no haviam conversado. Encontravam-se rapidamente na redao, mas acenos distantes eram profundamente insatisfatrios. A sede do CAEP estava pronta para receber novos clientes, e ela estava pronta para reencontrar Rick.
O que aconteceria naquele dia, um dia perfeitamente glorioso. A primeira frente fria da estao havia chegado, o ar estava seco e fresco e o sol brilhava com menor intensidade, indicando a chegada do outono. Ela c Rick haviam sido designados para cobrir dois jogos da Liga Sudoeste fora da cidade, e depois teriam de voltar a Austin para a partida da Universidade do Texas ainda naquela noite. Juntos! Mal podia esperar.
Trinta minutos mais tarde, quando j comeava a preocupar-se com o primeiro jogo do dia, viu Rick entrar na redao com passos rpidos. Ele beijou-a rapidamente na testa e, ao mesmo tempo, ligou o monitor do seu terminal de computador.
 Pronta para partir?
Ela afirmou com a cabea, contendo o desejo de dizer que estava pronta h mais de meia hora e que j deviam ter sado h quinze minutos.
 S quero verificar...  e parou, os olhos fixos na tela iluminada.
Ivy remexeu-se na cadeira, tentando dar a impresso de estar ocupada at que ele terminasse. Depois de alguns segundos no pde mais conter-se e perguntou:
	Viu o artigo?
	Sim, eu vi  e fechou os olhos, estendendo os braos acima da cabea para relaxar os msculos.
	Deixei uma cpia para o seu arquivo pessoal.
No ia perguntar o que ele pensava sobre o artigo. Era uma profissional, e as nicas opinies realmente importantes eram a dela e a de seu editor. O sr. Harris j havia aprovado a matria, e dissera que seu ponto forte era a redao elaborada, e no a rea de reportagem. Ivy sentira-se orgulhosa e desanimada, pois preferia evitar os esteretipos e rtulos. Naquele dia teria de ser mais persistente e agressiva que nunca.
A opinio de Rick sobre o artigo no tinha importncia. No teria feito um esforo to grande s para provar a ele que era capaz de escrever com perfeio e estilo.
Mas ele podia ao menos ler o artigo!
Ajeitou o jornal sobre a mesa de forma que, ao abrir os olhos, Rick visse sua foto estampada na primeira pgina.
Sem abrir os olhos, ele comentou:
 O artigo sobre o CAEP ... fantstico! Eu no teria feito melhor.
Ento, ele havia lido! E aprovara!
Agora o dia estava perfeito.
Perfeitamente horrvel!
As temporadas de diversas modalidades esportivas chegavam ao ponto culminante, e os reprteres da rea estavam sobrecarregados e mal humorados.
Parada na porta do vestirio do time vencedor, Ivy gritava suas perguntas com toda a fora dos pulmes, mas foi ignorada, empurrada e insultada. Correu para o vestirio dos perdedores e foi ignorada, empurrada e insultada. O nmero de jornalistas era duas vezes maior do que nos jogos iniciais e agora, alm dos beligerantes jogadores, tambm tinha de enfrentar os colegas de profisso.
Finalmente foi encontrar Rick no estacionamento e prometeu a si mesma que seria mais persistente no prximo jogo.
A segunda partida, realizada em outra cidade, j havia comeado quando eles chegaram. Seguindo uma sugesto de seu editor, Ivy escolhera alguns jogadores para acompanhar durante toda a temporada, relatando seus progressos e fracassos a cada semana. Alguns j estavam sendo indicados para prmios de carter nacional, mas a maioria era apontada como estreantes promissores.
Dois deles estavam jogando naquele momento. Entrevist-los seria uma tarefa dura, mas Ivy tinha a partida toda para preparar as perguntas e reunir toda a coragem necessria. O dia ainda no estava nem na metade, e j estava cansada e irritada. At Rick comeava a demonstrar os primeiros sinais de exausto.
Depois da partida, Ivy decidiu entrevistar os perdedores. O time vencedor recebera a imprensa de imediato, ignorando os dez minutos de intervalo que costumavam usar para o descanso dos jogadores e, portanto, quando ela conseguiu entrar no vestirio do adversrio, os outros reprteres j corriam para a segunda parte de suas entrevistas.
Por que tinha de suportar tanta tenso?
No havia conseguido nenhuma informao, at que Rick percebeu sua dificuldade e enviou dois jogadores ao seu encontro.
	Voc  do Globe?  um deles perguntou.
	Sim. Ivy Hall.
	Rick pediu que vissemos falar com voc.
Ivy hesitou, mas concluiu que no podia perder uma oportunidade. Mais tarde telefonaria para o atleta que acompanhava desde o incio da temporada e conversaria com ele longe da agitao do vestirio.
 Acha que ainda tm uma chance depois desta derrota frente ao Cougars?
O jogador respondeu e ela fez suas anotaes, cada vez mais deprimida. Rick a salvara novamente.
Quando finalmente tomaram o caminho para Austin e para o terceiro jogo do dia, ele perguntou:
 Teve mais sorte desta vez?
 Sim, obrigada. Rick... Aprecio muito a ateno que tem comigo, mas no devia me ajudar com as reportagens. Na verdade, no devia ter me ajudado nem uma vez. Preciso ter xito com meus prprios esforos. Ou fracassar sozinha.
Apesar do silncio, Ivy sabia em que ele estava pensando. No fosse por sua ajuda, j teria fracassado h muito tempo.
	Passei toda a temporada dizendo a mim mesma que s precisava de mais esforo e persistncia para vencer a barreira dos vestirios.
	E conseguiu?
	No, mas esse  um problema meu. Portanto, quero que prometa que no vai mais mandar seus amigos para serem entrevistados. No
quero que as pessoas sejam atenciosas s porque sou sua amiga.
Rick fitou-a rapidamente antes de voltar a concentrar-se na estrada, e ela percebeu que o aborrecera.
	J pensou que meu interesse em seu sucesso profissional pode ter alguma relao com o meu trabalho?
	Voc j disse algo parecido antes.
	Quem voc acha que faz todo o trabalho quando os reprteres decidem sair do Globe? Acha que eu quero passar o resto da minha vida cuidando de novatos?
	Acho que no.
Muitos quilmetros se passaram sem que a conversa fosse restabelecida, e depois de vrias tentativas fracassadas, Ivy decidiu que preferia o silncio.
O primeiro quarto do jogo j havia terminado quando conseguiram chegar ao estdio. Sem olhar para trs, Ivy subiu os degraus da arquibancada at a cabine de imprensa, e s percebeu que Rick no a seguira quando sentou-se em uma das poucas cadeiras vagas.
Inquieta, acompanhava cada lance da partida com ateno, tentando recapturar seu entusiasmo por futebol.
Ex-alunos, parentes, amigos e torcedores. Todos presentes. Todas as razes pelas quais decidira tornar-se uma jornalista esportiva. As chefes de torcida gritavam, a multido delirava, a banda tocava e Ivy esperava pela onda de adrenalina que sempre a inundava numa partida como aquela.
Nada.
No podia apreciar nada enquanto Rick estivesse aborrecido com ela.
Quando a partida terminou, ergueu os ombros e preparou-se para a batalha. Sabia que havia tomado a atitude certa ao pedir que ele no a ajudasse... Ento, por que sentia-se to infeliz?  A infelicidade tornou-se ainda maior durante a visita aos vestirios. Certa de que no conseguiria nada com os visitantes, decidiu ir ao vestirio do Longhorn que, com vitoriosos, estariam mais disponveis e bem humorados.
Bom humor era pouco para descrever a cena que viu ao entrar. O time estava eufrico, e os componentes faziam uma guerra de gua, cerveja e champanhe. Dois minutos depois, Ivy cheirava como um bar. Os atletas podiam tomar banho, mas ela...
Rick, os cabelos midos e o entusiasmo restabelecido, segurou-a pelo brao e puxou-a para um canto mais afastado:
- Viu quem est aqui?  perguntou em voz baixa.
	No. Quem?
	Rudy Allen, o empresrio.
Impressionada, Ivy tentou localiz-lo. Rudy Allen era um mito, o empresrio das maiores estrelas do esporte profissional.
	Quem ele est representando?
	 o que eu quero que descubra  ele cochichou.  Discutimos vrias vezes, e Rudy jamais me daria uma entrevista, mas ele no conhece voc. Portanto, v atrs dele e descubra tudo o que puder.
Rick queria convenc-la de que realmente precisava de ajuda, mas era bvio que, mais uma vez, tentava proteg-la.
	Pensei que houvesse concordado em me tratar como qualquer outro reprter.
	Ivy! No estou tentando ajud-la! V atrs do cara e descubra o que ele est fazendo aqui  e empurrou-a na direo dos chuveiros.
Faria a vontade dele pela ltima vez, mas s porque Rick havia feito uma excelente encenao.
Afinal, onde estava Rudy Allen? Olhando em volta, Ivy percorreu o ambiente cheio e mido, tentando localiz-lo.
Finalmente o viu. Um homem pequeno, com a cabea coberta por um chapu preto e rosto srio. Estava encostado na porta dos fundos, e ela decidiu que a melhor ttica seria sair pela rea dos chuveiros e alcan-lo por trs, impossibilitando uma fuga. J estava quase alcanando a porta, quando viu um dos jogadores sentado num banco no canto da sala, o brao envolto por uma bolsa de gelo.
O zagueiro da Universidade do Texas.
Que sorte! Ningum conseguira entrevist-lo, porque o atleta sofrera uma contuso no final da partida e fora para o vestirio antes dos companheiros.
 Ivy Hall, do Globe  apresentou-se, preparando o bloco e a caneta.
O zagueiro surpreendeu-se, mas recuperou-se em seguida e concordou em responder s suas perguntas.
Finalmente a sorte estava a seu lado. Mal podia esperar para contar a Rick. Desta vez no precisara de sua ajuda, e conseguira uma histria exclusiva e importante sozinha. Ele ficaria orgulhoso.
Assim que terminou de entrevistar o zagueiro, correu para o estacionamento e viu Rick andando de um lado para o outro ao lado do Jeep.
	E ento?  ele perguntou ao v-la.  Conseguiu?
	Eu entrevistei o zagueiro! Uma entrevista exclusiva! Veja s minhas anotaes!
	E Rudy? Quem ele est representando?
	Ah, ele partiu antes que eu pudesse alcan-lo.
	No descobriu nada? Nada?
	No.
Furioso, Rick virou-se e comeou a correr em direo ao estdio. 
 Rick! Seu joelho!
Ele a ignorou.
Meia hora depois, Ivy j havia chegado  concluso de que perdera uma grande oportunidade de fazer um bom trabalho. Rick havia confiado nela e, por orgulho, o decepcionara.
Finalmente ele surgiu do outro lado do estacionamento, caminhando devagar e mancando ligeiramente, o que a fez sentir-se ainda pior.
Estava aborrecido. Furioso. Enlouquecido!
E com toda a razo.
Ele entrou no Jeep, ligou o motor, engatou a marcha e ficou parado, olhando para o vazio. De repente esmurrou o volante e Ivy sobressaltou-se.
	Vamos esperar at amanh  ele resmungou com ironia.  Poderemos saber sobre o novo protegido de Rudy atravs dos jornais
concorrentes.
	Eu sinto muito.
	Rudy foi embora. O time foi embora. Os treinadores foram embora!
As luzes do estdio foram se apagando aos poucos.
	At o pessoal da manuteno est indo embora!
	Sinto muito  Ivy repetiu, admitindo que cometera um engano e tentando acalmar-se.
	Talvez um dos faxineiros queira me dar uma entrevista.
	Rick, j disse que sinto muito.
	E s isso que sabe dizer? A notcia escapa pelo vo de seus dedos, e s sabe repetir que sente muito?
Agora Ivy comeava a ficar irritada:
 A aurola no est pesada demais, Rick?
Ele fitou-a e pisou no acelerador, saindo como um maluco.
	Por qu? Por que no foi atrs dele?
	Porque pensei que estivesse tentando me ajudar novamente.
Voc est sempre dando um jeito de facilitar meu trabalho. Como eu podia saber que desta vez era diferente?
	Eu disse que era! Disse que Rudy no gostava de mim e que voc poderia conseguir informaes melhores que as minhas!
	Se tivesse me tratado como os outros reprteres desde o incio, nada disso teria acontecido.
	Se eu tivesse tratado voc como qualquer outro reprter, j teria fracassado.
	Como posso ter certeza?  ela protestou, tentando banir a insegurana da voz.
Na verdade, sabia que Rick estava certo. Jamais teria conseguido transformar-se numa reprter bem sucedida, porque era insegura e nunca tivera uma chance de testar a prpria capacidade sem a ajuda de terceiros.
Quando finalmente pararam diante do prdio do Austin Globe, Rick desligou o motor, respirou fundo e disse:
 Muito bem. Quer ser tratada como qualquer outro reprter, no ? Pois ento faremos como voc quer, srta. Hall.

CAPITULO IX

Darei o seu recado. Ivy desligou o telefone e escreveu a mensagem com caneta vermelha e deixou-a sobre o teclado do computador de Rick, onde ele certamente o encontraria.
Por que uma revista como a International Sports o procurava com tanta insistncia? Era pouco provvel que descobrisse a resposta, porque agora Rick a evitava.
Dissera que a trataria como qualquer outro colega de profisso, mas mostrava-se frio e distante, recusando os sorrisos e elogios que dispensava aos outros. Sugerira at que dividissem os treinos do time de futebol, pois seis da tarde deixara de ser um horrio conveniente para ele.
Ivy jamais tivera a inteno de romper o relacionamento pessoal, mas Rick no lhe dava uma chance de explicar-se. Tentara aproximar-se vrias vezes, mas sua expresso sombria e carrancuda a fizera desistir.
Passava cada vez mais tempo diante do computador, a infelicidade crescendo na mesma proporo do volume de trabalho.
As visitas aos vestirios eram cada vez piores, mas os artigos que redigia mereciam elogios cada vez mais constantes. Finalmente conseguira descobrir que entrevistas pessoais eram mais fceis, e que s ficava tensa quando era obrigada e enfrentar multides.
O telefone na mesa de Rick tocou novamente.
 Rick Scott, por favor. Aqui  Sonny Collin, do Colts.
A lembrana da primeira visita que havia feito a um vestirio a fez estremecer.
 Rick no est. Posso ajud-lo em alguma coisa? Sou Ivy Hall.
Ah, a reprter! Bem, no era nada importante. Por favor, diga a Rick que eu telefonei, est bem? Muito obrigado.
Adicionando mais um bilhete  pilha crescente, Ivy pensou no estranho telefonema. Um treinador querendo conversar com um reprter sobre um assunto sem importncia?
Pouco provvel.
O que Sonny Collin podia querer com Rick? Eram velhos amigos, mas alguma coisa em seu tom de voz... O Colts no participava da Liga Sudoeste, mas conseguira lanar dois zagueiros extraordinrios, um dos quais, o titular, havia sido indicado para um prmio bastante concorrido. O reserva era bastante talentoso, mas pouco aproveitado. Quanto mais pensava no assunto, mais tinha certeza de que devia investigar.
Vrios telefonemas mais tarde, sentia-se frustrada e exasperada. Havia tentando todos os nomes conhecidos do Colts, e nenhum deles quisera atend-la. Agora teria de tentar o segundo escalo. Eram menos procurados pela imprensa, e sempre tinham declaraes bastante interessantes com as quais tentavam chamar a ateno da opinio pblica.
Desta vez teve mais sorte. Aparentemente, havia uma onda de ressentimentos entre os jogadores do time, e muitos achavam que Taylor Brown, o zagueiro titular, estava recebendo tratamento preferencial para melhorar suas chances de ganhar o prmio.
Interessante. Ivy deixou seu nome e telefone, e colocou-se  disposio para quando quisessem falar mais alguma coisa.
Olhou para o relgio e para a mesa de Rick, coberta por recados escritos em tinta vermelha, e estava pensando no que fazer com eles quando algum cumprimentou:
	Ol, Hall! Como vai indo?
Era Billie, a fotgrafa.
	Lutando.
	As visitas aos vestirios tm sido mais fceis?
	Cada vez piores.

	Precisa endurecer, mocinha! De qualquer forma,  divertido aborrecer os homens, no acha?
	Se quer mesmo saber a verdade, odeio tudo isso. Odeio ficar esperando do lado de fora, odeio os comentrios grosseiros e a linguagem vulgar, e principalmente, odeio a atitude deles com relao  minha presena. Detesto lutar.
	Ento, escolheu a carreira errada.
Ivy respirou fundo:
	Talvez esteja certa.
 Voc  boa demais, Ivy. Pessoas normais no so boas  e inclinou-se sobre a mesa de Rick para ler os recados.
Pronto. L estava novamente. A boa menina que tentara endurecer e ser agressiva, e que s conseguira afastar Rick de sua vida. E ele era a nica coisa realmente importante naquele momento.
	A International Sports cumprindo o calendrio  Billie comentou.
	Calendrio? O que quer dizer?
	Eles procuram Rick duas vezes por ano para confirmar o convite.
	Convite? Est querendo dizer que eles querem Rick na revista?
	Isso mesmo.
Ivy ficou perplexa. No havia um nico jornalista esportivo em todo o pas que no sonhasse com um emprego na International Sports. Viagens, prestgio, dinheiro e respeito. A revista mensal tambm possua um canal de tev a cabo, e muitos dos reprteres acabavam ancorando telejomais de grande audincia. Ela mesma chegara a sonhar com isso vrias vezes.
	Rick recusou a proposta?  perguntou incrdula.
	Todas elas.
	Mas por qu?
	Tambm gostaria de saber. Por que no pergunta a ele?
Ivy olhou novamente para a mesa de Rick e lembrou do que ele havia dito num de seus primeiros dias de trabalho. O Austin Globe era apenas um degrau para a maioria dos reprteres. Por que ele mesmo no subia?
E afinal, onde diabos havia se metido? Verificou a escala de trabalho e no viu o nome dele. Talvez estivesse no CAEP...
Antes que pudesse perceber o que estava fazendo, Ivy j havia reunido todos os recados e dirigia rumo ao CAEP.
No tinha a menor ideia do que diria a Rick. Na verdade, no sabia sequer se o encontraria. Quanto mais se aproximava da casa que ajudara a pintar, mais desejava que ele no estivesse l. Mas ele estava. Ao virar a esquina, Ivy viu o Jeep parado diante do porto e respirou fundo, reunindo coragem para o confronto.
 Ol, Lincoln  cumprimentou ao entrar.  Rick est ocupado?
Mas no era Lincoln quem datilografava atrs da divisria de vidro. Era Rick. Apesar do tempo frio, insistia em usar as camisetas cortadas e os shorts de corrida.
	Ol, Ivy  ele respondeu com tom frio, sem interromper o trabalho.
	Eu... a recepo ficou bonita  disse, tentando iniciar uma conversa informal. -E os negcios devem ter melhorado muito depois daquele artigo.
	E verdade. Tivemos de recrutar mais trs conselheiros  e hesitou, antes de confessar:  Voc sabe o quanto sou grato pela ajuda.
	No, eu no sei. No conversamos mais, e voc sequer me convidou para visitar a casa depois da reforma.
	Voc no precisa de um convite para visitar o CAEP.
 Tem certeza?  insistiu, obrigando-se a fit-lo nos olhos.
Rick no respondeu, e depois de alguns segundos de silncio tenso e incmodo, Ivy perguntou:
	Ainda est aborrecido comigo por causa daquela histria sobre Rudy Allen?
	No  ele disse, desligando a mquina eltrica.  Todos tm o direito de errar de vez em quando.
	Ento, por qu...?
	Por que estou evitando voc? Porque no suporto ver a sua luta, o brilho de dor em seus olhos quando tem de correr atrs de um entrevista e... Bem, de repente voc desaparece atrs de uma parede e eu no sei o que acontece...
	Eu escuto as entrevistas de outros jornalistas e copio as informaes  Ivy confessou.
	E prefere agir assim a aceitar minha ajuda?
	Prefiro.
	No posso entender. Est batendo a cabea contra a parede, Ivy! E quando eu penso que est prestes a desistir de tudo, aparece com uma daquelas maravilhas de trs mil palavras!
Ele tambm gostava de seus artigos. No a ignorara por completo, afinal. Ivy sorriu...
Aquele sorriso o atingiu em cheio, e Rick compreendeu que Ivy era uma pessoa sensvel e doce, trabalhando numa profisso dura e agressiva. Para ter sucesso, teria de mudar sua personalidade, as caractersticas essenciais que a transformavam numa pessoa to especial. Revoltado, concluiu que no suportaria testemunhar a mudana.
J estava quase apaixonado pela pessoa que ela era.
Era terrvel v-la no trabalho, e pior ainda era saber que no queria sua ajuda. Se pudesse auxili-la, no teria de tornar-se a reprter agressiva na qual tentava transformar-se.
	Senti sua falta  ele admitiu.
	Eu tambm.
Segundos depois Rick havia contornado a divisria e a abraava.
	Ivy  suspirou , eu quero fazer isso dar certo.
	Ento, quando estivermos trabalhando, vai ter de me tratar como qualquer outro colega. Se perceber que estou prestes a errar, no interfira.
	 claro. Primeiro grito com voc e depois digo: Que tal um hambrguer?
 Se tiver de gritar comigo, pelo menos sugira um fil.
Ele abraou-a com mais fora e sussurrou:
	Vamos tentar  sua maneira, mas depois no quero ouvir reclamaes.
	Eu nunca reclamei!
	Ento, no comece agora  e levou-a para o sof macio e aconchegante.
Por que hesitava, quando a nica coisa que queria era beij-la? Estavam sozinhos, sem nenhum time de futebol por perto, e o sof era macio e confortvel. Ento?
Ivy fitou-o e ele teve certeza de que estava encrencado.
Um olhar bastou para que soubesse que estava apaixonada por ele, e isso o preocupava. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, acabariam tendo problemas de relacionamento profissional ou pessoal, o que significava que, mais cedo ou mais tarde, Ivy acabaria magoada.
No queria mago-la. Queria beij-la, mas um homem no beija uma mulher apaixonada a menos que tambm sinta a mesma coisa.
Ivy no era uma garota com quem um homem pudesse brincar, e beij-la naquele momento seria o mesmo que comprometer-se com uma situao sria e delicada.
Ela fora a melhor coisa que j acontecera em sua vida... e precisava dela.
Com o corao aos pulos, Rick afastou-se, sentindo-se como se houvesse sido atropelado por um zagueiro duas vezes maior que ele.
De repente fitou-a novamente e compreendeu que no podia mais negar a verdade. Estava apaixonado por Ivy. Absolutamente encrencado... e profundamente feliz.
Fiquei feliz por ter vindo.
Foi a ltima de uma srie de frases absurdas que os dois haviam trocado na ltima hora. A ltima, porque de repente Ivy ps a mo no bolso da cala e exclamou:
 Eu ia me esquecendo! Os recados...
Sem afastar o brao que mantinha sobre seus ombros, Rick verificou os bilhetes escritos em tinta vermelha e descartou-os rapidamente, conservando apenas dois deles.
	Viu o recado do treinador Collin?  ela perguntou.
	Sim, mas no  nada importante. Ele quer que eu apresente Taylor Brown na liga profissional.
Ivy lembrou-se dos problemas vividos pelo Colts e insistiu:
	Tem certeza? Ele pode ter outro assunto interessante para discutir.
	Duvido.
Isso significava que tinha uma histria de verdade, e que havia descoberto as pistas sozinha!
O recado da International Sports foi o prximo a alcanar a lata de lixo.
	Rick! Billie disse que eles querem lhe oferecer um emprego!
	Billie devia limitar-se a revelar seus filmes.
	Isso  verdade?
	Ivy, eles apenas fizeram alguns convites, mais nada.
	Billie disse que voc os recusou.
	Est vendo? Ela fala demais.
	Por qu? Todos os reprteres da rea sonham em trabalhar para a International Sports!
	Mas eu teria de me mudar para Nova York.
	Ah...  ela gemeu.
Mudar-se de Austin? Para longe dela?
 Na verdade, no estou interessado. No posso deixar o jornal enquanto no houver um reprter qualificado para assumir a redao.
E ela devia ser esse reprter.
Maravilhoso. Se conseguisse sucesso profissional, Rick deixaria o Globe e sairia de sua vida.
E se fracassasse, seria responsvel por mant-lo longe de um emprego fabuloso. Ele abrigaria tantos ressentimentos, que a relao acabaria sendo prejudicada.
Resumindo... perderia Rick de qualquer maneira. 
Um lindo dia de sol marcou o final da temporada de futebol feminino. O ltimo jogo, disputado entre o Furaco Rick e o Esquadro Ivy. Desta vez estavam brigando de verdade.
Ivy tentou pensar no confronto como um jogo qualquer, mas sabia que era uma luta entre filosofias opostas, um confronto entre homens e mulheres.
Seu time chegara ao final do campeonato invicto, mas ela ainda sentia pelas trs meninas que haviam desistido. As restantes haviam aprendido o valor da recompensa para um trabalho duro, e a lio as acompanharia por toda a vida.
Ela mesma aprendera lies valiosas com o time. Passara a ltima semana perseguindo a histria do Colts, determinada a ser a primeira jornalista a divulgar os fatos. Se tivesse sucesso, Rick poderia finalmente aceitar o emprego na International Sports, sem preocupar-se com sua incapacidade para substitui-lo.
Ao descer do carro, viu o grupo de meninas reunidas no campo e reconheceu a figura masculina no centro da roda. O Furaco Rick... e o prprio Rick.
Como sobreviveria se ele fosse para Nova York?
Era melhor deixar para pensar no assunto quando, e se fosse necessrio.
Decidida, aproximou-se do campo e acenou para que as meninas se reunissem. Rick percebeu a movimentao e, notando sua presena, foi cumpriment-la.
	No vou beij-la, apesar da vontade  sussurrou.
	Nem pense nisso!
	Est nervosa com o jogo?
	Um pouco  ela mentiu.
	Mentirosa. Est apavorada!
- Por qu? As meninas esto invictas!
 Queria conversar com voc a esse respeito. Notei que suas jogadoras so excelentes numa posio, mas incapazes de atuar em qualquer outra. Algumas delas me contaram que nunca conseguiram jogar mais do que dez minutos.
	Todas elas participam do jogo.
	Mas s no final, quando a vitria j est garantida.
	E da?
Rick verificou o relgio e apitou, indicando que era hora das integrantes dos times receberam as instrues dos treinadores. Ivy o imitou.
	Por que no deixa as meninas jogarem nas posies que quiserem?  ele sugeriu.
	Por qu? S para o seu time vencer?
	Acredite ou no, eu estava pensando no seu time. Soube que trs garotas desistiram, e estou surpreso por terem sido s trs. Este  o ltimo jogo. D uma chance a elas e veja o que acontece.
Como seu time reagiria diante da primeira derrota?
	Vou conversar com as garotas  ela respondeu.
	Perfeito! E no esquea que combinamos uma festa de encerramento com pizzas no CAEP depois do jogo.
	Acha que eu ia perder? No esquea de levar o trofeu e as fotos.
O juiz apitou, Ivy e Rick apertaram as mos e foram ocupar seus lugares nos bancos.
Depois de estudar a lista de integrantes do time e suas posies, Ivy pensou na sugesto de Rick e decidiu conversar com as garotas antes de tomar uma deciso.
 O que acham de mudarem de posies e todas jogarem pelo menos quinze minutos?  perguntou, esperando pelos protestos e surpreendendo-se com os aplausos.
At as bailarinas, que nunca perdiam uma oportunidade de demonstrar o quanto o futebol as aborrecia, demonstravam um enorme contentamento.
 Quero que saibam que corremos o risco de perder o jogo  ela preveniu, surpreendendo-se mais uma vez ao descobrir que nenhuma delas parecia preocupada com o resultado da partida.
Para elas, o mais importante era participar. Tentara mostrar a todas o que significava competir de verdade, e s conseguira faz-las detestar a competio, exatamente como ela.
 Em que posio vou jogar, treinadora?  perguntou Ruth Ann, pulando de um lado para o outro.
Ivy respirou fundo e disparou:
	Em que posio quer jogar?
	Goleira!
	Ento, hoje voc ser a goleira.
	Graas a Deus  Lanie suspirou.  Eu sempre odiei jogar no gol.
Ivy chamou Ruth Ann e avisou que devia vestir a camisa especial de arqueira. A menina estava recebendo os abraos dos pais, que normalmente compareciam aos jogos, e o pai dela j preparava a filmadora para registrar o momento histrico em que a filha vestiria a camisa de goleira pela primeira vez.
Vendo o rosto alegre e feliz, Ivy sentiu-se enjoada. Terrivelmente enjoada com a compreenso sbita do mal que fizera quelas crianas.
As meninas jamais haviam jogado para vencer. Julgava estar agindo corretamente ao encorajar as melhores jogadoras com recompensas, e agora percebia que s havia conseguido desanimar as menos talentosas.
Triste, terminou de ouvir as preferncias de cada jogadora e preparou-se para o incio da partida.
Minutos depois, o time de Rick havia marcado mais gois do que em todo o campeonato.
Como todos os outros presentes, Ivy foi incapaz de acompanhar a contagem do placar.
Depois da partida ele aproximou-se, ps um brao sobre seus ombros e mostrou as integrantes dos dois times, rindo e brincando como se jamais houvessem competido.
	Nunca pensei que a vitria fosse to pouco importante para elas  Ivy comentou.
	Vencer  importante  ele sorriu.

	No se atreva a dizer que vencer no  tudo, porque essa frase sempre  dita pelos vencedores!  ela riu.  Oh, Rick! Eu estraguei toda a temporada de futebol dessas crianas...
	De jeito nenhum! Se voc no se oferecesse para trein-las, elas nem teriam participado.
 Acho que isso me faz sentir um pouco melhor.
	Pois devia sentir-se muito melhor! Veja  e apontou para os dois times, que dividiam garrafas de suco e refrigerantes.  Parece que acabaram de disputar alguma coisa?
	No. Na verdade, parece que esto famintas.
	Ento... Vamos s pizzas!
Todos seguiram para o CAEP, onde aconteceria a confraternizao. Rick e Ivy entregaram o trofeu e as medalhas, e receberam placas com fotos de seus times.
Ivy estudou o retrato que acabara de receber das garotas, lamentando pelas trs meninas que haviam desistido depois de feita a foto.
 Ivy!  Rick chamou.  Venha ver onde vou pendurar o meu quadro  e indicou que devia segui-lo.
Deixaram as meninas na lanchonete e foram at a recepo, onde ele apontou para a parede entre a porta e a janela.
	Vai ficar lindo  ela aprovou.  Tenho certeza de que este  o primeiro de uma srie de prmios cvicos.
	Voc tambm merecer alguns  ele respondeu, dirigindo-se  mesa de Lincoln.  Onde ser que esto os pregos e o martelo?
Ainda estava procurando nas gavetas, quando o telefone tocou. Surpreso, Rick ofereceu o fone e anunciou:
 E para voc.
 Quem ?  Ivy perguntou, aproximando-se para atender.
Era um dos jogadores do Colts, e parecia disposto a contar coisas importantes.
Ivy apanhou papel e caneta e, sob os olhos atentos de Rick, sugeriu que eles conversassem pessoalmente.
 Alguma coisa importante?  ele perguntou ao v-la desligar.
 No... S desdobramentos de uma histria que estou acompanhando. Vou me despedir das meninas. Tenho de estar em Fort Worth s trs, e ainda preciso cuidar disso antes  e apontou para o telefone.
Sem esperar por mais perguntas, Ivy despediu-se das garotas e partiu.
A Faculdade Central do Texas, o lar do Colts, ficava a cerca de uma hora de Austin, e durante todo o trajeto Ivy tentou combater a culpa que ameaava invadi-la. Mas por que sentia-se culpada? Rick recebera o recado do treinador Collin, e preferira no investigar. Ela, por outro lado, havia descoberto tudo sozinha.
No dividiria suas informaes com qualquer outro reprter do Globe, e nem Rick podia esperar que fizesse algo to absurdo. Precisava provar que, apesar dos fracassos nos vestirios, era uma jornalista competente.
Quando terminasse de redigir sua histria, finalmente seria reconhecida. Rick poderia aceitar o emprego na International Sports... e a vida seria simplesmente perfeita.

CAPITULO X

O zagueiro havia telefonado no intervalo, e Ivy chegou no estdio a tempo de ver os times deixando o campo. O que significava que teria de visitar" novamente o vestirio do Colts.
E desta vez Rick no estava por perto.
Respirando fundo, aproximou-se da porta e esperou que a entrada da imprensa fosse autorizada.
Naquele sbado realizavam-se os jogos mais importantes da Liga Sudoeste, e a maior parte dos jornalistas estava cobrindo as partidas vlidas pelo campeonato oficial. O Colts no fazia parte da Liga, o que significava que poucos reprteres aguardavam para entrevistar a equipe.
Impaciente, consultou o relgio. Se no encontrasse o jogador em alguns minutos, no chegaria a tempo de cobrir o jogo em Fort Worth.
 Srta. Hall?  perguntou um jovem musculoso, convidando-a a entrar.  Eu sou Jeremy.
Vrios atletas aproximaram-se, todos com a mesma expresso aborrecida.
 Bret vai passar para a categoria profissional depois desta temporada  Jeremy anunciou.  Descobrimos tudo no intervalo do jogo.
Bret... o talentoso zagueiro reserva.
 Ele assinou um contrato com um empresrio poderoso  acrescentou outro jogador , e agora acha que  bom demais para o nosso time.
Ivy escrevia com rapidez. O Colts, da Faculdade Central do Texas, perderia seus dois zagueiros. Por isso todos os atletas estavam to aborrecidos. O time seria seriamente desfalcado.
 Achamos que o treinador Collin o convenceu a tornar-se profissional, mas no sabemos que razes ele teria para isso.
Ivy agradeceu a todos e seguiu os outros reprteres at a sala de entrevistas. Agora Bret era um astro, e entrevistas no vestirio faziam parte do passado.
Havia um homem ao lado dele, e ela o reconheceu de imediato. Rudy Allen. J devia ter imaginado.
Bret limitava-se a sorrir, enquanto Rudy respondia  todas as questes.
Ivy j conhecia toda a histria e, por isso, decidiu voltar ao vestirio e procurar o treinador Collin. Encontrou-o na sala que funcionava como seu escritrio.
 Vejam s quem est aqui!  ele exclamou.  A reprter de saias!
Apesar da antipatia, Ivy disparou a primeira pergunta:
	Agora que Bret e Taylor esto deixando o time, quais so seus planos para a prxima temporada?
	Estamos iniciando um processo de reconstruo...
Sonny Collin exps seus planos e Ivy escreveu cada palavra, concluindo que no havia nada de extraordinrio nas informaes. Qualquer treinador faria a mesma coisa. E no entanto, ele estava mais comunicativo do que em todas as outras vezes. Por qu?
 Encorajou Brett Carson a tornar-se profissional?
 Por que eu faria isso?
Realmente, no fazia sentido algum.
	Percebeu alguma insatisfao entre os integrantes do Colts?
 perguntou, tentando no trair Jeremy e os outros.
	Eles no seriam humanos se no estivessem com inveja. No entanto, se treinarem com afinco, tambm alcanaro o sucesso.
	Mas eles no so parcialmente responsveis pelo sucesso dos zagueiros? Tambm no deveriam merecer algum tipo de reconhecimento?
O sorriso despareceu do rosto de Sonny Collin.
	Eu treinei aqueles zagueiros, mocinha, e trate de aprender a soletrar meu nome, porque vai ouvi-lo cada vez mais. E sabe por qu?
	No.
	Porque vamos mudar nossa ttica. Ainda no disse nada a ningum, mas estamos negociando a transferncia de alguns joga dores talentosos e de grande futuro.
Enquanto ele falava, Ivy anotava tudo com ansiedade crescente. Isso sim era uma grande notcia! Os outros jornalistas cercavam o mais novo candidato ao futebol profissional, e ela conseguia uma entrevista exclusiva com Sonny Collin!
Finalmente ele concluiu a histria e Ivy agradeceu, partindo apressada em busca de um telefone.
A nova ttica do Colts! Que furo!
 Boyd Harris, por favor. Aqui  Ivy Hall.  Quando o editor atendeu, ela estava pronta para ditar todas as informaes obtidas com exclusividade.
O artigo estaria na edio de segunda-feira do Austin Globe.
O resto do dia passou voando, e j passava da meia-noite quando ela estacionou diante do prdio do jornal, depois de cobrir a ltima partida do dia. Conseguira entrevistar Brett Carson depois do telefonema ao editor, e queria redigir o artigo enquanto ainda tinha todas as informaes frescas na cabea.
E, para ser honesta, queria encontrar Rick.
Aquela histria era justamente o que precisava para alimentar sua auto-confiana. Seguira uma pista e, sem nenhuma ajuda, havia conseguido descobrir dados importantes pelos quais merecera os elogios do editor.
Pela primeira vez, desde que sara da faculdade, no sentia que havia escolhido a carreira errada.
Sabia que conseguiria. No administrava um negcio prprio como as duas irms, mas seria capaz de manter a cabea erguida em qualquer reunio familiar.
Sem uma palavra aos colegas, sentou-se diante do computador e comeou a compor o artigo sobre os talentosos zagueiros e a equipe de uma pequena faculdade do Texas, onde eles haviam comeado.
A sala foi ficando vazia e Ivy permanecia atenta, os olhos fixos no cursor.
De repente algum tocou-a no ombro e ela virou assustada.
 Desculpe se a assustei, Ivy, mas preciso falar com voc disse Boyd Harris.
Parecia solene, e ela levantou-se para segui-lo at sua sala. Quando o sr. Harris abriu a porta, Ivy descobriu que havia mais algum no escritrio. Rick.
Ele ergueu os olhos para fit-la e, apreensiva, Ivy notou sua expresso sombria.
Por que ningum falava? Alguma coisa havia acontecido.
 Sente-se, Ivy indicou o editor.  Sobre o artigo que voc passou pelo telefone... Quais foram suas fontes?
Ela resumiu os eventos que haviam precedido o telefonema, e Boyd Harris perguntou:
	Quando conversou com o treinador Collin?
	Esta tarde. Telefonei assim que terminei a entrevista.
O sr. Harris balanou a cabea e Rick resmungou alguma coisa, esperando que ela o encarasse para dizer:
	Sonny Collin aceitou a proposta do Miami Panthers para a prxima temporada.
	Ele vai treinar o Panthers?  admirou-se. No sabia sequer que o time procurava um novo treinador!
Rick afirmou com a cabea e o editor comentou:
	Ele convocou uma entrevista coletiva para segunda-feira, s dez da manh... logo depois da edio do Austin Globe chegar s bancas. Felizmente descobrimos tudo antes de imprimir o jornal.
	Mas... Ele... Sonny Collin falou sobre a nova ttica do Colts, sobre a reconstruo do time, e j sabia que na prxima temporada estar treinando o Miami Panthers! Ele fez de propsito!
	Exatamente  confirmou o editor.  Felizmente Rick conseguiu uma exclusiva com o treinador Collin, e quando toda a imprensa estiver tomando conhecimento dos fatos, o Globe j estar divulgando a notcia.
Rick? Rick!
Furiosa, Ivy virou-se para fit-lo.
 Falei com o treinador Collin logo depois de voc deixar o CAEP  ele explicou.
E roubara sua histria.
	Voc atendeu ao telefonema! Sabia que um jogador do Colts queria falar comigo!  acusou, orgulhosa da voz firme e da ausncia de lgrimas.
	Sim.
	Sabia que eu estava indo para o estdio.
	Imaginava.
	Ento, fez alguns telefonemas...
	S um.
	E furou minha reportagem.
	Isso mesmo.
	Voc tramou tudo isso?
Eu no tramei nada! Sonny pensou em tudo sem a minha ajuda.
	E por que ele faria isso?
	Ivy... Ele nunca gostou de mulheres no vestirio.
Ento era isso. Novamente.
O rosto de Rick misturava tristeza e raiva, e Ivy sabia que o seu era uma mscara de decepo e fracasso.
Forando-se a encarar o editor, que parecia cada vez menos a vontade, ela anunciou:
 Consegui entrevistar Brett Carson depois daquele telefonema, e tambm falei com alguns integrantes do time. Posso redigir um artigo com essas informaes, alguma coisa que sirva como pano de fundo para a matria de Rick.
Quanto profissionalismo! Receberia os cumprimentos mais tarde, quanto chorasse todas as lgrimas que ameaavam afog-la. Depois de longos instantes de silncio, o editor disse:
 E que... Sua ideia  excelente, mas Rick tambm j tem um artigo sobre Brett Carson. Parece que o Miami Panthers est interessado em contrat-lo. Brett e Collin sempre trabalharam juntos...
Ivy fechou os olhos e respirou fundo:
 Rick andou ocupado  e levantou-se.  Vou terminar a matria sobre o jogo de Fort Worth... a menos que Rick tambm j tenha cuidado disso.
 No, essa matria  sua  Boyd Harris anunciou aliviado.
Sentindo-se prestes a romper em lgrimas, Ivy saiu do escritrio, fechou a porta de vidro com cuidado e foi sentar-se diante de seu computador. Rick seguiu-a, mas no teve a mesma cautela ao bater a porta.
	Diga alguma coisa  ele pediu, parando ao lado de sua mesa.
Sem desviar os olhos da tela, ela resmungou:
	Parabns.

	No... Alguma coisa sobre o que aconteceu. Precisamos conversar.
	 mesmo?
Tudo bem, ento grite comigo.
 Para aliviar sua conscincia?
 Minha conscincia est em paz!
Surpresa, Ivy descobriu que no sentia mais vontade de chorar. Tambm no tremia, no estava vermelha e nem envergonhada. A nica coisa que sentia era dio, um dio crescente e poderoso digno da traio que acabara de sofrer.
	Ivy, j passa de unia hora da manh.
	Ento, v para casa  respondeu, digitando com agilidade espantosa.
Irritado, Rick segurou seus pulsos e a impediu de prosseguir com o trabalho.
 Escute aqui, eu fiz exatamente o que voc me pediu. Tratei voc como teria tratado qualquer outro reprter.
 Est querendo dizer que rouba as histrias de todos os colegas?
 Eu no roubei sua histria. Voc no tinha uma, lembra-se?
	 verdade. E voc est satisfeito por poder apontar meu fracasso.
	Ivy!  e respirou fundo, tentando manter a calma.  Eu fui  sala de Boyd Harris para verificar se voc j havia terminado o artigo sobre Sonny Collin. Se sua matria estivesse pronta, eu teria arquivado a minha.
	Quanta bondade! E teria feito isso por qualquer um?
	Acho que no.
 E por que no? No tem noo de tica profissional?
	Ah, quer discutir a tica? Pois bem, como conseguiu chegar  histria de Brett Carson? Atravs de um certo telefonema... para mim!
	Eu no teria atendido quele telefonema se voc estivesse em sua mesa trabalhando, e no se escondendo no CAEP!
	Est querendo dizer que no  digna de confiana?
	Eu transmiti o recado, e voc disse que no era nada importante.
Descobri a histria sozinha, depois de horas correndo atrs de jogadores e treinadores. E voc... voc deu um nico telefonema, e o treinador principal contou tudo!
	Sonny Collin  meu amigo pessoal!  claro que ele falaria comigo antes de responder s suas perguntas.
	E depois o ajudou mentindo para mim.
	Ivy, eu no sabia nada a respeito das mentiras de Collin.
 claro que no. Por maior que fosse o dio, tinha de reconhecer sua integridade.
 Talvez eu acredite... e talvez no.
Rick parecia prestes a estrangul-la.
	Eu sabia que isso aconteceria. Sempre soube que um dia acabaramos discutindo por razes profissionais.
	E por que no tentou evitar?
	Ivy, ponha os ps no cho! No pode continuar ignorando o fato de ser mulher!
 E da? O que isso tem a ver com a situao?
 Sonny Collin no teria mentido para um homem.
Ivy j suspeitava disso, mas ouvir a comprovao deixou-a ainda mais furiosa:
	O que prova que  um canalha sem escrpulos!
	E que declarou guerra. E agora, o que pretende fazer?
	No tenho a menor inteno de lutar contra quem quer que seja.
	Se no enfrent-lo, nunca mais conseguir entrevistar Sonny Collin.
	E da? O Colts nunca foi assunto de primeira pgina.
	Ele no vai continuar no Colts, lembra-se? E o Miami Panthers  um time importante.
Agora sim, sentia vontade de chorar.
 Ivy, ou toma uma atitude enrgica, ou pode desistir da carreira.
O desespero baniu o pouco que ainda lhe restava de controle e pacincia. Notando que ela estava prestes a explodir, Rick prosseguiu:
 Se no est preparada para combater o preconceito, ento est na profisso errada.
Primeiro Billie, e agora Rick.
A imagem que fizera de si mesma como uma jornalista famosa e bem sucedida estava desmoronando. Passara metade da vida assistindo  escalada profissional das irms, e era imprescindvel que tambm tivesse uma carreira.
Quisesse ou no...
As irms Hall tinham carreiras bem sucedidas... e ponto final.
Com um suspiro, fitou-o nos olhos e disse:
 Lutar contra o preconceito  uma coisa. Lutar contra voc  outra bem diferente.
Afinal, ele era o nico culpado. Se no houvesse investigado o telefonema que ela recebera de um integrante do Colts, nada disso teria acontecido.
O Austin Globe teria publicado um artigo mentiroso e cheio de informaes falsas... Ou no? Na verdade, se Rick no houvesse conversado com o treinador Collin, ele jamais teria pensado em engan-la.
Definitivamente, Rick era o culpado.
Ele sabia que devia confort-la, mas no estava disposto a pedir desculpas pelo que fizera.
Queria torn-la nos braos e garantir que nada disso voltaria a acontecer, mas sabia que estaria mentindo.
 Ivy, estamos competindo profissionalmente, e se eu tiver uma oportunidade, no hesitarei em furar suas reportagens.
Era horrvel testemunhar a morte dos ltimos sinais de inocncia em seu rosto. A dor e sofrimento desapareceram de seus olhos castanhos, dando lugar a uma amargura que, ele sabia, acabaria envenenando o relacionamento pessoal que haviam comeado.
	J entendi  ela respondeu.
	Faria o mesmo com qualquer outro reprter.
 Mas isso no  comum no mercado, ?
: O que quer dizer?
	Acho que entendi porque os outros reprteres desistiram do Globe. Porque  impossvel competir com voc, um heri local conhecido e idolatrado por todos os esportistas do estado.
	No vou pedir desculpas por ter feito contatos ao longo de toda a minha vida.
	E nem eu esperava nada parecido. Mas isso acontece aqui, em Austin. Que tipo de reprter acha que seria em Nova York?
	Melhor do que voc.
	Talvez, mas as oportunidades seriam mais equilibradas.
	Ivy, voc cometeu um erro e agora quer encontrar algum em quem possa jogar a culpa!
	Eu sou a nica culpada, mas voc estava atento para tirar vantagens do meu erro. No quer que eu tenha xito. Quer que eu desista!
	Ah! Mulheres!

	Agora sim, est demonstrando seus verdadeiros sentimentos.
Rick fechou os olhos e contou at dez.
	Ivy, j  tarde. Esta discusso degenerou para a troca de ofensas, e eu disse que tnhamos de separar a vida profissional da pessoal. Venha, vou lev-la para casa.
	No, obrigada. Ainda tenho trabalho a fazer.
	Deixe para amanh. Vamos namorar um pouco e esquecer tudo isso  e desligou o monitor.
	Que atrevimento!  ela explodiu.  Depois de tudo o que houve, como pode esperar que eu... que...?
	Que aceite a proposta de namorar a esquecer tudo?  ele perguntou, realmente assustado com o dio que via em seu rosto.
 Porque uma ocorrncia profissional no deve afetar nosso relacionamento afetivo, lembra-se?
Ivy deu um murro na mesa que fez Rick retroceder um passo.
 Voc enlouqueceu? Acha que pode me apunhalar pelas costas e depois consertar tudo com alguns beijos? E ainda afirma que  capaz de repetir a dose se tiver uma chance! No, Rick. Pensei que fosse capaz de separar meus sentimentos, mas  impossvel.
Infelizmente, ele tambm no podia separar as coisas.
	J  tarde  disse.
	Se quer ir embora, sinta-se a vontade. V de uma vez!
E no volte nunca mais. Rick teve a impresso de ouvir as palavras que ela no havia dito.	.
 Ivy  chamou, como se pudesse invocar a Ivy que ela havia sido e apagar da mente a imagem amarga que tinha diante dos olhos.
 Tome cuidado quando for para casa.
Sozinha na redao, Ivy lembrou-se das coisas horrveis que ouvira pouco antes. Rick no s no pedira desculpas, como afirmara que seria capaz de fazer tudo outra vez! Pintara seu futuro profissional com cores escuras e sombrias, e deixara claro que teria de estar eternamente atenta para evitar traies e dissabores. Alerta contra o preconceito, contra informaes falsas e disputas desiguais... Jamais conseguiria se acostumar. Nunca!
Jornalismo e esportes haviam sido seus nicos amores at conhecer Rick. Misturar os dois primeiros havia sido difcil, mas incluir o terceiro ingrediente na receita fora um verdadeiro desastre.
No queria aquele emprego estpido! Queria Rick.
Ento, por que conservava o emprego e abria mo de Rick?
Terminou o artigo sobre o jogo de Fort Worth e desligou o monitor. Boyd Harris estava saindo de sua sala e, aproveitando a oportunidade, ela chamou:
	Sr. Harris!
	Ivy! No h necessidade de trabalhar at to tarde. V para casa.
	Estou indo, mas primeiro quero pedir desculpas por ter trazido informaes falsas.
	Isso acontece.
	Eu sei. Na verdade, fiquei sabendo que devo estar preparada para enfrentar coisas piores.
	No  to ruim quanto parece  ele sorriu.
	Para mim,  pior do que parece. Por isso quero desistir.
	Que bobagem...
	Estou falando srio.
	Ivy, so duas horas da manh. V para casa, durma e pense melhor quando estiver menos exausta.
	Eu acho que as coisas so mais claras s duas da manh  ela disse, respirando fundo antes de concluir.  Posso at ir para casa e dormir, mas sei que no vou mudar de ideia.

CAPITULO XI

Ivy chorando.
Sim, tia Ivy est chorando  ela respondeu, tirando o anjo de porcelana das mos do pequeno Nicholas. Como qualquer garoto de dois anos de idade, ele adorava brincar com os enfeites de Natal.
Dia de Ao de Graas. H quatro dias, quando o sr. Harris dissera que devia ir para casa, sentira um desejo sbito de visitar a famlia, certa de que o pequeno apartamento em Austin jamais poderia ser chamado de lar.
Embora a manso em Dlias agora pertencesse  irm e ao cunhado, ainda era l que sentia-se em casa, e onde tinha muito espao para esconder-se do mundo. Passava a maior parte do tempo naquele quarto, remexendo as caixas da pequena firma de decorao da irm mais velha.
. Numa rara demonstrao de sensibilidade, Holly no fizera perguntas sobre sua chegada inesperada, mas agora era hora de encarar o mundo novamente. No podia fingir que estava de frias indefinidamente.
No domingo anterior, um dia depois dos eventos desagradveis envolvendo Rick e sua carreira, Ivy retornara ao jornal e entregara sua carta de demisso, apesar dos protestos do sr. Harris.
Talvez pudesse viver como reprter free-lancer... Mas nunca mais poria os ps num vestirio de futebol.
Deixara um bilhete curto sobre a mesa de Rick, explicando que havia desistido do jornal e estava voltando para casa. Nos primeiros dias esperara que ele a procurasse, que telefonasse, mas agora j havia perdido qualquer esperana.
Os sentimentos de Rick no eram to intensos e profundos quanto os dela.
 Nicholas, qual  o problema com os homens?
O pequeno encarou-a, sorriu e mostrou o enfeite natalino que tinha na mo:
	Avo gande.
	Ave grande, querido  ela corrigiu.
Nicholas perdeu o interesse no pssaro de loua e voltou a vasculhar a caixa.
 Pensei que ele me amasse. Nunca disse nada, mas eu imaginava que...
Nicholas fitou-a com ar solene, os olhos de Holly coroados pelas sobrancelhas espessas de Adam. Rpido, jogou um boneco de loua sobre o colo da tia e disse:
 Aca!
 Desculpe, querido, mas Oscar no  o homem certo para mim.
No. Rick era o homem ideal. E o trocara por um emprego que nem queria! Dissera coisas horrveis, e o acusara de coisas ainda piores.
A arrependia-se de cada palavra.
 Ivy chorando.
 Eu sei. Tia Ivy est sendo ridcula  e abraou o sobrinho com ternura.  Venha, vamos ver se sua me precisa de ajuda na cozinha.
Encontraram Holly no escritrio, acertando os detalhes de mais trs encomendas para o Natal.
	Ivy  ela disse ao ver a irm.  Voc andou chorando pela casa por quase uma semana e eu consegui conter minha curiosidade, mas acho que j  hora de termos uma boa conversa sobre isso...
ele. S um homem pode causar tanto sofrimento.
	Oh, Holly! Eu arruinei minha vida!
Nicholas sentou-se no colo da me e comeou a remover as tampas das canetas, enquanto Ivy relatava toda a histria sobre Rick, seu emprego e a terrvel discusso que marcara o fim de tudo.
	Voc desistiu?  Holly perguntou com ar incrdulo.
As irms Hall nunca desistiam.
	Desisti.
 Pelo que acabou de contar, parece que aquele emprego no era o ideal para voc.
	A carreira no  ideal para mim. Acho que nenhuma ! No quero me transformar numa pessoa dura e agressiva. No posso!
	Vai encontrar outra coisa  Holly afirmou, obrigando Nicholas a tirar a caneta da boca.
- Mas eu no quero encontrar mais nada!
 E o que voc quer?
A pergunta simples foi mais do que podia suportar. Chorando, compreendeu que queria uma casa e filhos. Filhos de Rick. Queria assar biscoitos, ser me e esposa, treinar um time de futebol feminino e ensinar coisas importantes s crianas. Queria passar a vida toda orgulhando-se do sucesso de Rick e ajudando-o a superar os pequenos fracassos. Queria tempo para escrever artigos bem elaborados, pesquisados e profundos.
	Voc ama esse homem  Holly constatou.  No est aborrecida porque perdeu o emprego. Est triste porque perdeu Rick.
	Ele  o homem mais maravilhoso que...
	Ento, telefone para ele e esclarea toda essa confuso. Agora!
	Agora? Mas eu nem sei onde ele est!
 Hoje  dia de Ao de Graas. Se ele no estiver em casa, deve estar trabalhando. Quer saber de uma coisa? Eu devia ser a reprter!
Rick estava trabalhando. Na verdade, estava cobrindo um jogo no Texas Stadium, bem ali cm Dlias. Com o encorajamento da irm e um aviso de que o jantar estaria pronto em uma hora, Ivy decidiu ir at o estdio.
Procurou por ele em todos os lugares, at que parou diante da porta do vestirio e preparou-se para declarar seu amor diante de um bando de atletas suados e seminus.
Mas Rick no estava l.
Voltou para casa, onde foi recebida por todos os aromas tradicionais do dia de Ao de Graas.
 J era hora!  Holly exclamou ao v-la.  O peru est pronto h meia hora, e vai acabar soltando dos ossos! E ento? O que aconteceu?
Ivy tentou sorrir, mas as lgrimas foram mais fortes.
Vendo a expresso de desespero em seu rosto, Holly abraou-a. Em seguida entregou-lhe uma colher de pau, empurrou-a at o fogo e deixou-a chorando sobre o molho.
Tente encontr-lo amanh  sugeriu, levando os pratos para a sala de jantar.
 Para qu?  Ivy perguntou, seguindo-a com passos arrastados.
 No adiantaria nada.
Holly encarou-a com um olhar firme e demorado, uma indicao clara de que sua pacincia estava chegando ao fim.
Um forte cheiro de queimado invadiu a sala e Ivy correu para a cozinha, sentindo-se ainda mais fracassada. Agora queimara at o molho da irm!
Holly foi mais rpida que ela e retirou a panela do fogo.
	Ivy, v ver televiso enquanto eu termino o jantar. Deve haver um jogo de futebol em algum lugar.
	Futebol? No quero mais saber disso. Nunca mais quero escrever uma linha sobre o assunto!
	Se no quer mais saber de futebol, ento a paixo  mais sria do que eu pensava.
	Eu estava exagerando. Aposto que vou superar tudo isso mais depressa do que imagina. Em uma semana, no serei capaz de lembrar o nome dele...
	Eu sei...  Holly riu.
	 verdade! Foi s uma iluso.
	No seja infantil, Ivy! Voc ama esse homem. Fique atrs dele at obrig-lo a admitir que tambm a ama.
	No  to simples.
	 claro que !  insistiu, minimizando a aflio da irm.
Ivy pensou em discutir, mas algum tocou a campainha e, arrastando-se, ela foi atender. Estava com o corao partido e Holly, satisfeita e feliz com sua vida domstica, no podia compreender a dor de viver um amor fracassado.
	Adam deve ter esquecido as chaves  Holly comentou em voz alta.  Ele levou Nicholas para um passeio. Ser que pode...?
	J estou indo  Ivy respondeu. Tocou a maaneta e descobriu que a porta no havia sido trancada.  Adam, a...  e parou, os olhos fixos no rosto do visitante.
No era Adam. Era Rick!
 Posso entrar?  ele perguntou.
Sem responder, Ivy afastou-se e permitiu que ele entrasse, fechando a porta em seguida.
Parecia exausto, e as olheiras profundas aumentavam a impresso de cansao.
	Rick...
	Ivy...
Os dois falaram ao mesmo tempo e pararam, embaraados.
Ivy sentiu uma sbita onda de esperana... mas j havia esperado antes, e tudo terminara em sofrimento. Um pedido de desculpas no era o mesmo que uma declarao de amor, mas pelo menos estavam conversando novamente.
	Ivy, eu fui...
	Um canalha  uma voz interrompeu da porta da cozinha.
Imponente, Holly mantinha os olhos fixos no rosto de Rick.
Ivy gemeu e Rick deduziu:
	Voc deve ser Holly...
	E voc deve ser o homem que fez minha irm chorar por uma semana!
	Holly!  Ivy protestou, rangendo os dentes para no gritar.
	Muito bem, vocs tm cinco minutos para resolver toda essa confuso e se beijarem.
	Holly!
Que humilhao!
	Planejei um cardpio que devia ter sido servido h meia hora.
Agora tenho molho queimado, legumes frios e um peru quase derretido! Trate de pedir desculpas, beijar minha irm e pedi-la em
casamento. E depois pode ficar para o jantar.
	Holly!
	Obrigado pela sugesto, mas sou capaz de resolver isso sozinho.
	Espero que sim!
Rick olhou para a porta por onde Holly acabara de desaparecer e disse:
- Sua irm  um pouco autoritria, mas acho que ela est certa sobre...
 Trs minutos!  Holly gritou.
	Ela est comeando a me irritar  Rick confessou.
Ivy respirou fundo:
	 a especialidade de Holly.
Os dois sorriram hesitantes e, juntos, disseram:
 Sinto muito...
Em seguida os dois riram, e Rick havia acabado de estender a mo para toc-la no rosto quando a porta se abriu e Adam e Nicholas entraram. Era demais! Nicholas correu para a cozinha, mas Adam parou e olhou de um para o outro com expresso sria.
Ivy os apresentou e Adam, como sempre, brindou Rick com... O Olhar. Muitos homens haviam tremido diante daquele olhar, e at Holly silenciava quando merecia um deles.
Os dois trocaram um aperto de mo e permaneceram em silncio, como se pudessem estabelecer uma comunicao muda e tipicamente masculina. Em seguida Adam sorriu, abraou a cunhada e disparou:
	Rick, meu amigo, vou lhe dar um conselho. Quando estiver lidando com as mulheres desta famlia, seja rpido e decidido. E nunca d a elas uma chance de pensar, porque  assim que as irms Hall se metem nas maiores encrencas.
	Acha que algum j morreu de vergonha?  Ivy murmurou assim que Adam foi para a cozinha, deixando-os sozinhos.
Rick sorriu:
 Ivy, eu amo voc. E sua famlia j percebeu tudo.
No podia ser! Ele dissera que a amava! Mas s depois da interferncia da irm e do cunhado...
	Rick, no quero que leve a srio as coisas que Holly...
	No se preocupe  ele interrompeu, segurando as mos dela e levando-as aos lbios. - Pensei em telefonar, mas tive medo de que desligasse sem ouvir o que eu tinha a dizer. Por isso vim pedir desculpas pessoalmente. Tive sorte de descobrir onde estava e de ter conseguido passar pela porta. Sua famlia tem uma linha de defesa invejvel!
	Urna linha ofensiva, voc quer dizer...
 Eles amam voc, e querem proteg-la. E eu tambm a amo.
Dissera novamente. Uma vez podia ter sido um impulso, mas duas...
	Est falando srio?  ela perguntou, piscando vrias vezes para conter as lgrimas.
	E claro que sim!
	Oh, Rick! No sabe como tenho sofrido  gemeu, permitindo  que as lgrimas corressem livres e atirando-se em seus braos.  Tive tanto medo de perd-lo! Disse coisas horrveis! Nunca amei ningum, e no sei quais so as regras.
	Acho que no existem regras  ele sorriu, beijando os cabelos
macios e brilhantes.  A no ser que, num certo momento, voc deve dizer que tambm me ama.
	Mas eu acabei de dizer!  ela exclamou, abraando-o com mais fora.	'
	Ivy, eu no queria que desistisse do emprego, mas agora que aconteceu, acho que foi melhor para ns dois.
	Eu sei que foi. No podia competir com voc durante o dia e esquecer tudo  noite.
	Eu no estava pensando nisso. Na verdade, eu...  e hesitou, fitando-a nos olhos.  Eu tambm deixei o jornal.
	Por qu? Rick, voc era o redator chefe!
	Aceitei o convite da International Sports.
	Aceitou? Isso  maravilhoso!  e respirou fundo, tentando ser forte.  Quando partir para Nova York?
	No primeiro dia do ano, mas ainda no assinei o contrato.
Disse ao editor que tinha de resolver algumas coisas antes da deciso definitiva.
	Que coisas?
	Ivy... Eu no irei  parte alguma sem voc.
Finalmente as peas do quebra-cabea se encaixavam, formando um lindo quadro do futuro feliz que teria ao lado de Rick.
	Existem muitos jornais em Nova York. Voc pode candida tar-se a reprter em qualquer um deles e...
	Rick, no precisa me convencer de nada. Eu vou para Nova York com voc. Vou para qualquer lugar, desde que seja com voc!
	Oh, Ivy! Prometo que farei o possvel para ser digno do seu amor.
Nesse momento uma voz exaltada os interrompeu:
	No vou deixar minha irmzinha ir viver em pecado naquela cidade enorme!
	Holly, por favor  Adam tentava silenci-la.
	Vou telefonar para Laurel agora mesmo! Se eu no puder obrig-la a desistir dessa loucura, Laurel conseguir!
Rick e Ivy trocaram um olhar confuso, e ele perguntou:
	Qual  o problema com ela?
	Est tendo dificuldades para aceitar que a irmzinha cresceu.
Mas no se preocupe, Rick. Eu sou capaz de decidir a minha vida sem a interferncia de Holly.
	No quero provocar atritos entre voc e sua famlia... mas tenho a impresso de que ela no seria contra a ideia de nos casaunos. 
	Como pode saber? Ns nem tocamos nesse assunto!
	Ivy, eu acabei de pedi-la em casamento!
	 mesmo? Eu no ouvi nada.
Rindo, Rick fitou-a nos olhos e perguntou:
	Quer se casar comigo, srta. Hall?
	No sei... Acho que sim  e abraou-o com fora, oferecendo os lbios para um longo beijo apaixonado.
Quando finalmente se afastaram, perceberam que uma pequena plateia formara-se na porta da cozinha e, notando o rosto sombrio de Holly e o ar de censura de Adam, Ivy anunciou apressada:
	Ns vamos nos casar!
	Oh, graas a Deus!  Holly suspirou aliviada.  Agora podemos comer.
O peru estava soltando dos ossos, uma pele tostada coberta pelo molho queimado, e Nicholas havia espalhado pur de batatas sobre o cadeiro.
Para Ivy, foi o melhor jantar de Ao de Graas que j havia provado.
	Junho  um ms to romntico  Holly opinou.  Ainda temos algumas coisas do casamento de Laurel e podemos us-las.
Sei que voc vai preferir uma mesa mais simples, mas talvez seja possvel uma adaptao.
	Talvez  Ivy murmurou.
	Laurel  mais... exagerada. Ivy, voc no tem ideias pouco convencionais a respeito da cerimnia, tem?
Ivy sorriu. Ento a irm mais velha ainda no se recuperara do susto provocado pelo vestido de noiva vermelho de Laurel!
	No, Holly.
	Otimo. Seu casamento ser em tons pastis.
- Talvez, mas no vou esperar at Junho para me casar.
 E claro que vai  Holly afirmou.  Laurel e eu nos casamos em junho.
	Mas no ficaram noivas em novembro.
Holly parecia no ouvir.
	Pela primeira vez terei tempo suficiente.
Ivy olhou para Rick, que sorriu de maneira animadora. Em seguida fitou Adam, que parecia divertir-se com a situao. Notando a expresso de splica no rosto da cunhada, Adam sorriu e decidiu ajud-la.
	Holly, talvez Ivy prefira outra data.
	No seja ridculo! Ela acabou de ficar noiva.
Tinha de agir depressa, ou no teria outra oportunidade para escapar ao autoritarismo da mais velha das Hall. Lembrou-se do casamento de Laurel que, de maneira esperta, marcara a data para uma semana antes do nascimento de Nicholas, certa de que a barriga imensa impediria a irm de interferir. Holly ainda tentara comandar o espetculo, mas Laurel havia alterado todos os planos e fizera a coisa a seu modo.
Precisava encontrar alguma coisa para distrair Holly. Olhou em volta, pensando no assunto, e de repente viu a placa na porta do escritrio da irm: Feliz Natal! Deck the Halls.
Natal! A poca do ano em que Holly mais trabalhava!
Ivy segurou a mo de Rick e inclinou-se em sua direo:
	Natal?  sussurrou.  Podemos nos casar no Natal?
	Por que no? Voc ser o melhor presente que j recebi.
	Holly  Ivy chamou, sem desviar os olhos do noivo. Vamos nos casar no Natal.
	O qu? Neste Natal? Mas s temos cinco semanas, e eu fico absolutamente maluca nesta poca do ano! Mal terei tempo para ajud-la!
De mos dadas com Rick, Ivy sorriu com ar satisfeito e respondeu:
 Eu sei.

CAPITULO XII

Aquela mulher!  Holly exclamou com Ltom irritado, os olhos fixos em Billie. Em seguida olhou-se no espelho do salo da noiva, na igreja, e respirou fundo.  Ivy, querida, acho melhor preparar-se para uma decepo com as provas de seu lbum de casamento.
Ivy, que permanecia sobre.um pequeno pedestal para que as outras pudessem ajeitar a cauda do vestido, sorriu para o buque. No era o melhor momento para informar que no haveria provas de fotos, porque Billie nunca permitia que algum visse um trabalho que julgava inadequado. Ela mesma escolheria as fotos do lbum, sem pedir a opinio de ningum.
 Espero que no se arrependa de no ter contratado Armando para fazer as fotos. Sei que foi tudo muito rpido, mas ele me deve alguns favores.
	Este  o presente de casamento de Billie  Ivy protestou.
Holly abriu a boca para responder mas, rpida, Ivy perguntou:
	Aquilo na cauda do vestido  uma mancha?
 Onde?  Holly assustou-se, abaixando-se para examinar toda a extenso de tecido imaculado.
Ivy olhou para o buque de lrios brancos, surpresa por perceber o quanto era fcil lidar com Holly depois de se descobrir os truques certos.
Nada estragaria aquele dia. Era Natal, e o melhor presente seria o seu casamento. Havia imaginado uma cerimnia ntima, apenas com os familiares e amigos mais prximos, mas Holly conseguira armar um verdadeiro pandemnio, apesar da falta de tempo.
Ivy sonhara em fazer os votos na capela de pedra da parquia, mas Holly havia reservado a catedral mais conhecida de toda a regio.
Ivy pensara em brindar com champanhe em sua casa, mas Holly organizara uma recepo no salo nobre do Landreth Hotel. Holly enervara-se, discutira e explodira. Ivy apenas sorrira e sonhara.
	Ivy, querida, onde conheceu aquela mulher horrvel?  Laurel perguntou, gloriosa em seu vestido de veludo vermelho.  Ela est tirando fotos no salo masculino!
	O que no me surpreende  Ivy sorriu.
As duas irms mais velhas trocaram um olhar de cumplicidade, como se perguntassem o que a mais nova teria feito sem elas.
Ainda no pudera sequer ver a decorao da igreja, porque as duas haviam insistido em fazer uma surpresa para a noiva.
Feliz, Ivy examinou-se mais uma vez no espelho e viu os metros de seda branca que desciam a partir de sua cintura formando uma saia ampla e imponente. O tecido fora comprado anos antes para o primeiro trabalho de Holly, um baile de caridade, e havia ficado guardado a espera de uma utilidade.
Holly tentara us-lo no casamento de Laurel, mas ela j havia escolhido um vestido de renda vermelha que chocara a irm mais velha. Nicholas havia nascido horas depois da cerimnia, e Holly ainda insistia em dizer que o susto provocara o incio do trabalho de parto.
 Pronto  anunciou a mais velha das Hall.  Voc est maravilhosa.
O vestido fora feito s pressas, mas era simplesmente encantador. O corpete tinha um decote em forma de corao e mangas longas e justas, ligeiramente bufantes na altura dos ombros. Nunca apreciara os exageros, mas talvez devesse ter usado um pouco mais de renda... De qualquer forma, agora era tarde demais, e o vestido realmente no era importante.
 Muito bem  Laurel disse, atraindo a ateno das irms.
 A seda foi um presente da sua irm mais velha. Os tambores, Holly!
Holly fez a melhor imitao de tambores de que era capaz e Laurel apanhou uma caixa escondida atrs do espelho.
 E este  o da sua irm do meio  anunciou, removendo a tampa e retirando ondas e ondas de uma rede fina e brilhante.
Ivy abriu a boca e, perplexa, perguntou:
  o vu?
As duas mais velhas afirmaram triunfantes. Centenas de pequenos cristais haviam sido presos  rede fina e transparente que, sob o brilho intenso, quase no aparecia.
 Por isso o vestido  totalmente sem adornos  Ivy concluiu, enquanto as duas prendiam o vu em seus cabelos.
Era como se uma nuvem de pedras preciosas flutuasse em torno de sua cabea.
 Voc parece uma princesa da neve  Laurel comentou, os olhos cheios de lgrimas.  E exatamente s quatro e trinta e sete, o sol estar penetrando pela janela ao lado do altar e incidindo sobre voc. Quando disser o sim, estar brilhando como uma estrela.
Somente Laurel para pensar em algo to teatral.
 Eu sabia que quatro e trinta e sete era um horrio estranho para uma cerimnia de casamento  Ivy sorriu.
Holly consultou o relgio e perguntou:
	Onde est Adam? Ele j devia ter trazido o colar de mame.
	Elas no vo deix-lo entrar  Jack avisou, segurando Rick
pelo brao.  O noivo no pode ver a noiva antes do casamento.
Rick mirou-se no espelho e ajeitou a gravata, sentindo-se pouco a vontade.
	Mas eu quero ver a cara dela quando abrir o presente.
	Eu registrarei sua expresso numa foto  Billie ofereceu.
	Boa ideia  Adam aprovou.  Pensando bem, registre todas as expresses das irms Hall.
Ajeitando a gravata pela centsima vez, Rick avisou:
	Linc, se tiver problemas com o CAEP, pode contar comigo.
	Eu sei, Rick. Mas garanto que no terei problemas  Lincoln respondeu.  Repeti isso pelo menos duas vezes por dia no ltimo ms.
	Eu sei, mas o CAEP  importante, e quero ter certeza de que ele continuar funcionando.
 Ah, muito obrigado pelo voto de confiana!
Rick virou-se e abraou o amigo.
	Ivy comentou que voc pretende fundar uma organizao si milar em Nova York  Jack interferiu.
	 verdade.
	Se precisar de um advogado, lembre-se de que h um muito bom na famlia  Adam ofereceu com um sorriso.
	Cavalheiros, est chegando a hora!  Billie exclamou com entusiasmo.  No vamos deixar a noiva esperando.
A batida na porta do salo da noiva provocou um suspiro de alvio por parte das duas damas de honra.
Ivy calou os sapatos forrados de cetim e respirou fundo.
 Finalmente!  Holly exclamou, abrindo a porta para Jack e Adam.
Embora soubesse que o noivo no estaria com os cunhados, Ivy correu at a porta e tentou ver alguma coisa do lado de fora, mas s conseguiu divisar o rosto perplexo de Billie.
Os dois recm chegados tinham as mesmas expresses de espanto.
Afinal, qual era o problema? O vu estava exagerado? Ivy mordeu o lbio e olhou para os dois cunhados com ar inseguro.
Adam foi o primeiro a reagir:
- Ivy, voc est...
	Fascinante!  Jack completou.  Parece um sonho!
	Uma princesa de conto de fadas  Billie opinou num sussurro.
Laurel piscou para conter as lgrimas e reclamou:
 L se vai minha maquiagem.
 Acham que Rick vai gostar do vestido?
Todos sorriram, e Jack respondeu:
	Falando em Rick, ele gostaria muito de ter vindo, mas sabia que no poderia entrar. Ns...  e olhou para Adam.
	Ah, sim!  respondeu o outro, entregando a caixa vermelha que levava nas mos.
	O colar de mame?  Holly perguntou ansiosa, estendendo a mo para receb-lo.
	S um minuto  Adam pediu, aproximando-se de Ivy. Durante todos esses anos, suas irms usaram o colar de diamantes de sua me em todas as ocasies especiais. Acho que voc jamais teve uma oportunidade de us-!o.
	No. Nunca achei que fosse muito indicado para visitar vestirios  e observou a caixa fechada na mo do cunhado.
J conhecia a jia. Trs diamantes unidos por uma barra coberta de pedras menores, e um pingente em forma de gota preso ao brilhante
do meio. J havia sido uma pea valiosa e rara, mas a me vendera todas as pedras para evitar a falncia da empresa do marido, e as substitura por imitaes para que ele jamais descobrisse.
Ao contrrio das duas irms, Ivy jamais gostara de usar peas pesadas como aquele colar, mas Holly e Laurel haviam se casado com a jia que fora da me, e o vestido fora desenhado especialmente para combinar com o colar.
	Antes do colar, Adam, vamos dar nosso presente  Jack sugeriu, retirando uma pequena caixa de veludo do bolso do palet.
	E o presente dos seus cunhados, com amor e todos os votos de muita felicidade  Adam indicou.
Ivy abriu a caixa e surpreendeu-se ao ver o par de brinco de brilhantes.
	Oh.So lindos!  ela exclamou, colocando os brincos e abraando-os com carinho.  Muito obrigada!
	E agora o colar  Adam anunciou, abrindo a caixa de couro vermelho.
Holly arregalou os olhos e exclamou:
	O que aconteceu com o pingente? Sumiu!
	Ns o removemos  Adam explicou, abrindo o fecho da jia e ignorando as expresses perplexas das duas irms mais velhas.  Ivy, esse  o presente de Rick  explicou, mostrando o novo fecho de brilhantes.
Sorrindo, Jack completou a explicao:
 Ns trocamos as pedras por brilhantes verdadeiros. Feliz Natal, senhoras.
As trs irms Hall emitiram exclamaes admiradas, e duas delas atiraram-se nos braos dos maridos. Nervosa, Ivy apertou o buque com mais fora e disse:
 Eu quero ver Rick  e desceu do pedestal.  E no vou esperar nem mais um minuto!
Ocupadas com o brilho ofuscante do colar, nenhuma das outras duas percebeu o que a caula pretendia fazer.
	Venha, Billie  Ivy sussurrou, abrindo a porta com cuidado.
 Voc tem um casamento para cobrir.
	Ei, volte aqui!  Holly gritou com alguns segundos de atraso.  No pode entrar na igreja antes do sol estar na posio certa!
Ento venha me fazer parar!  Ivy riu, correndo na direo do santurio.
Estava aproximando-se da porta entreaberta quando parou subitamente, encantada com as duas enormes rvores brancas adornadas com centenas de pequenas luzes brilhantes. Guirlandas de folhas verdes enfeitavam a soleira, a lateral dos bancos e o altar, e metros de seda branca adornavam os corredores e a nave da igreja. As notas harmoniosas produzidas pelo quarteto Opus Quatro flutuavam por todo o ambiente.
Mas o que realmente a fascinava eram as duas dzias de pequenas rvores brancas que haviam sido colocadas atrs do altar e nos corredores, lembrando o Natal. Nervosa e emocionada, comeou a rir e chamou a ateno dos convidados que reuniam-se perto da porta. Cada rvore era decorada com pequenas rplicas de artigos esportivos. Bolas de futebol, beisebol, raquetes, bastes e pequenos capacetes e caneleiras de porcelana.
S Holly para pensar em algo to original!
As duas irms a alcanaram, ofegantes, e Ivy sorriu para as duas, enlaando-as pela cintura:
 Obrigada  murmurou.
Nenhuma delas foi capaz de dizer nada por alguns segundos, e Laurel foi a primeira a recuperar-se, apesar da voz tremula:
	As irms Hall no podero estar juntas novamente por um bom tempo. Jack e eu estaremos na Califrnia, e Ivy ir para Nova York com o marido.
	E todas voltaro para passar o Natal em Dlias  Holly de cretou.
	O que acham de pensarmos neste Natal primeiro?  Ivy sugeriu.
Nesse momento a porta ao lado do altar se abriu e Rick apareceu, seguido por Lincoln. Os dois pararam com ar solene no local reservado ao noivo e ao padrinho. Adam, que recebera a misso de conduzir a noiva, aproximou-se das trs irms e ajeitou a gravata. Jack beijou a esposa na testa e levou Nicholas para dentro da igreja.
A um sinal de Holly, o Opus Quatro comeou a tocar um movimento do Concerto de Natal de Corelli e, depois dos abraos emocionados das irms, Ivy preparou-se para entrar.
 Lembre-se, querida  Laurel sussurrou, antes de seguir Holly.
 Os diamantes so os melhores amigos de uma garota.
As portas abriram-se com um estrondo impressionante e Rick pde finalmente ver a noiva caminhando em sua direo. Feliz, Ivy sorriu ao ver o ar perplexo em seu rosto, a mesma expresso que vira pouco antes nos rostos dos cunhados e de Billie. Confiante, caminhava lentamente em direo ao homem que amava e ao futuro feliz que teria a seu lado.
Quando alcanaram o final do corredor, ele desceu os dois degraus do altar e estendeu a mo, levando-a pra a frente do padre.
 Voc est linda  murmurou.
Quando o religioso pronunciou as primeiras palavras da cerimnia, o sol atingiu a posio esperada e penetrou pela janela lateral, banhando Ivy numa luz dourada e intensa que a transformou numa espcie de ser encantado. Os pequenos cristais do vu foram atingidos pelos raios de luz e todos os convidados emitiram exclamaes que iam da surpresa  mais completa admirao.
 Eu amo voc  Rick sussurrou.
Ivy sentiu que poderia explodir de felicidade. Havia algo de mgico em estar parada num recinto sagrado, agraciada pela luz do sol e cercada pelo homem que amava e pelas irms que adorava e admirava.
Olhou para o lado e viu o ar de felicidade no rosto das duas mulheres. Holly parecia mais serena e contida, como se finalmente pudesse relaxar. Durante todos os anos que seguiram-se  morte dos pais, ela fora a responsvel pela segurana e o bem estar das duas irms mais novas, e agora devia estar sentindo a maravilhosa sensao do dever cumprido.
Laurel estava eufrica, e no fazia o menor esforo para esconder a alegria que a dominava. Era uma mulher bem sucedida, uma profissional lutadora que conseguira realizar o sonho de uma carreira ao lado do marido que amava.
Ivy aprendera que cada pessoa faz o seu sucesso. Para sua surpresa e alvio, nenhuma das duas irms tentara pression-la a retomar a carreira, e haviam demonstrado satisfao ao saber que a caula seguiria o marido em suas viagens, e que escreveria artigos eventuais para jornais e revistas interessados.
A luta havia sido rdua e difcil, mas finalmente fora coroada pelo final feliz.
Ou melhor, pelo comeo feliz. Ivy sorriu para o homem a seu lado e viu um imenso amor estampado em seus olhos.
 Oh, Rick!  exclamou, esquecendo que devia manter a voz baixa.  Feliz Natal!


FIM
